quarta-feira, 27 de novembro de 2013

O CORPO GLOCAL


É um cair profundo, vácuo que não estanca. Não é ócio: é o fazer que falta, corpo que desabita o tempo que se deseja acelerado. Sonho de luz que se acende e se apaga em outro lugar, sem sair de onde se está. Queda de Alice que de Maravilha não tem nada, com flashes do cotidiano, lembranças em filtro vintage do Instagram, recortes de tarefas obrigatórias e pressas que desvanecem na letargia da vontade.
Descontenta-mentos, amizades estabelecidas em cliques, opiniões, polêmicas, exorcismos, convites, feitiçaria, felicitações, orações... Slogans e logomarcas envoltos em promoções e protestos. Fluidez de notícias, de sons, de links... Que não são seus, e não deixam de ser. Imerso no bunker glocal, a vida se esvai, o corpo se estratifica em digitalização de frases lacônicas e status momentâneos, retratos de presente que materializa a morte na nuvem midiática que eterniza sensações. Check-ins de experiências efêmeras amanhã são posts sobrepostos, esquecidos na gaveta de grandes portais de silício.

Profecia Wachowiski em detrimento de Nostradamus: Matrix embriagada de corpos flutuantes, desgravitados em órbita, em motu continuum. Premonição de magia eletrônica: notebooks "Ouija" que perguntam: “tem alguém aí?” - esperando a quebra do silêncio no chat. Pelourinho dinâmico: escravização contemporânea em lista de sugestões de amizade pela escolha de seres através da metáfora oca da imagem, muitas vezes fake. Estratégia que aproxima em rede distanciando do mundo concreto, desmantelando a realidade e a noção de tempo vivido.
E o ser isolado. Globalizado. Localizado. Concentrado em si. Cabisbaixo no Iphone. Corpo contrito embebido na circunstância da autoestima resumida à quantidade de likes. E as horas...
De Sidney à Rio Branco, Reykjavik à Cuzco, um map, um gap, um Google. O mundo inteiro em cartão postal, com pressa de processamento giga hertziano, mas nada tanto assim. E a novela passando, o político sendo preso, o outro morrendo, um outro matando... E o corpo passando. Fio de cabelo branco surgindo, mas o Photoshop corrige, corta, edita, faz o dia nublado ficar mais bonito, a ruga menos profunda, a solidão parecer alegre no espelho da academia, do banheiro e do elevador.
Pseudo-ações que vazam como água - insipientes e inodoras - são mentalizações estendidas de um corpo inerte: não conheço, mas salvei da leucemia - doei pelo Pay Pal. Assinei a petição: lutei contra a homofobia na Rússia e contra a pena de morte... Mas não levei minha mãe ao médico. Chorei com a crise ambiental na China, a radioatividade nos mares japoneses, mas continuo sentado, sem tempo pra separar o lixo reciclável na minha cozinha. E o tempo...
Um óvni: engano... É a atualização do Google Street. Espetáculo da natureza: um eclipse solar – achei estranho porque anoiteceu! Vi no Youtube. Fulano está sumido – deve ter morrido ou deletado o seu Facebook. E o vácuo continua...
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Arthur Marques de Almeida Neto. 27.11.2013.