terça-feira, 4 de novembro de 2025

“Sobre Despalavra” (2001): lembranças da experiência na Renato Vieira Companhia de Dança

 ...tenho algumas lembranças sobre o processo de composição do trabalho “Sobre Despalavra” (2001), como bailarino e sendo coreografado e dirigido pelo Renato Vieira, há 24 anos (!!!)... Começo essa escrita com um sorriso no rosto e uma respiração profunda. Soraya Bastos, amiga da vida e da dança,  pediu-me para falar sobre o que lembro do processo de criação do trabalho, em especial, como me recordo das relações que Renato buscou estabelecer com a poesia de Manoel de Barros. Desafio. E sigo.

Sei que a memória é um instrumento falho e que, muitas vezes, preenchemos algumas lacunas das lembranças com questões afetivas e outras que nos atravessam ao longo dos anos, mas posso dizer que assumo a responsabilidade de que o que compartilho agora, talvez, tenha muito de alegoria que a minha memória afetiva daquela época preencheu sobre as lacunas do que me falha a lembrança: quase um ato poético, uma vez que contar memórias é também criação subjetiva...Um jeito que cada um encontra para expressar a experiência. Considerando isso, fico mais confortável para me expressar.

Considero a experiência de dançar com o Renato muito positiva; um momento da minha vida que me sentia muito lisonjeado pelo reconhecimento do Renato das minhas possibilidades expressivas como bailarino. Sempre tive admiração e respeito pelo Renato – e, até assumo: certo medo, também. Explico: eu sentia uma vontade muito grande de aprovação. Nesse sentido, treinava, estudava e me esforçava bastante para compreender o que o Renato pedia. Nunca fui um bailarino com grandes possibilidades técnicas e físicas para dançar a dança do Renato – nunca fui muito flexível e não tinha uma técnica de dança totalmente suficiente para os projetos coreográficos do Renato. Portanto, estar no palco com as exemplares e experientes bailarinas Soraya Bastos e Sueli Guerra – e com o amigo, também recém-ingresso na companhia, Gregory Lorenzutti, - era, mais do que uma oportunidade de aprendizado, motivo de orgulho.

Apesar das minhas inseguranças sobre a devida competência para “defender” a coreografia do Renato, creio que fui, naquela época - e durante toda a minha participação como bailarino da companhia (2000 a 2006), - regularmente capaz. Se não pela disponibilidade de formas alongadas e virtuosismo técnico, cumpri, no meu entendimento, na qualidade da expressividade, no tocante ao correto modo de expressar o fluxo e as qualidades do movimento que marcam o estilo do Renato. A meu ver, o trabalho coreográfico do Renato priorizava formas muito bem desenhadas no espaço, uma preocupação detalhista/meticulosa com o modo como o corpo desenha o espaço se moldando em formas alongadas e ampliadas; um tempo que alterna entre o rápido e o sustentado, o decupado e o contínuo; um movimento “sustentado”, onde formas/imagens se constroem...

Ainda sobre como percebo o trabalho do Renato, com raríssimas exceções, em especial em “Sobre Despalavra”, o movimento nunca é aleatório ou improvisado. Em poucas passagens, no processo de criação, improvisamos; mas ele selecionou o que foi “gerado” por nós e isso passou a ser incorporado no projeto coreográfico, e orientado – ou modificado - pelo Renato. Sobre esse aspecto, considero que “Sobre Despalavra” é um espetáculo que Renato conseguiu fechar um projeto muito coerente e coeso: dividido em sessões – ou cenas – inspiradas em poesias do Manoel de Barros, essas sessões, no que diz respeito à dança, têm uma coreografia com um projeto e desenho que conseguem, com muita propriedade, revelar as escolhas e valores estéticos do Renato, com elementos que auxiliam isso, como figurino e luz, projeções, música, entre outros.

Lembro de alguns momentos do processo de criação. Lemos, juntos, algumas poesias de Manoel de Barros. Lembro que Soraya tinha um cuidado especial de imprimir as poesias e guardá-las – não lembro bem se em um caderno ou álbum com folhas de plástico. Isso me vem à memória como havia em cada envolvido no processo, cada uma a seu modo, uma vontade e disposição de colaborar com o Renato e de fazer um trabalho sério e de qualidade. Com a atitude, Soraya me fez perceber que dançar em uma companhia não se tratava apenas de ensaiar e executar um projeto coreográfico, mas se engajar em sua criação, preocupar-se consigo e com o sentido de buscar contribuir na sua realização, compreendendo e se afetando expressivamente no processo. Percebemos, com as leituras em grupo, a relação que Renato buscava, no processo de criação, com Manoel de Barros: não apenas a inspiração das imagens poéticas, mas também a inspiração no modo que a escrita era organizada.

Noutro momento, quando ele me coreografava em um solo, ele executava a movimentação: dançava, mostrando o que queria, com a qualidade de movimento que ele desejava. Em seguida, eu buscava repetir o que percebi, tentando me aproximar do modo que ele executava. Nesse solo, lembro que, em determinado momento, abaixou-se e manteve o olhar fixo em um ponto no chão, como se procurasse algo... colocou a mão direita no chão, com cuidado, como se apanhasse algo e, andando de costas, em linha reta para trás, deslizando e mantendo a mão em contato com o chão, subitamente, levantou-se, com o punho cerrado, e abriu a mão, como se arrancado e jogado algo para trás, com o braço em arco. Disse que era “arrancando o mato”, “capinar”. Na minha percepção, havia muito mais nesse movimento, metaforicamente, que um mero “arrancar de mato”. Mas foi a única coisa que Renato verbalizou sobre o movimento. Percebi que era um modo generoso do Renato me deixar “livre”, para que eu “enxertasse” aquele movimento com o sentimento que me viesse. Penso que era um momento de colaboração e, nessa perspectiva, estávamos, os dois, criando um mundo com a dança, um jeito de organizar em corpo e metáfora o universo pessoal de Renato e Arthur, e como nós dois “sentíamos” o trabalho de Manoel de Barros. Nessa cena, música lenta que remetia a uma gaita, alternada com movimentos rápidos/súbitos, remetia, para mim, a uma atmosfera de solitude, autorreflexão, sem tristeza, mas com alguma melancolia que não era representada na expressão do rosto: não se tratava de uma personagem. Era dança, sem teatro, em sua concepção mais tradicional de ator e de representação.

Em outra passagem, para o início de um duo com Soraya, ele fez uma movimentação, descendo em diagonal do canto esquerdo para o meio da sala. Ele mudava de posições de corpo, em poses, com o impulso do braço direito que “cortava o ar”. Disse que era o facão: cortar tudo, abrindo o caminho. Compreendi que era outra relação imagética com a poesia de Manoel de Barros, uma imagem que o Renato absorveu e que fazia sentido para ele, como imagem que se relaciona com um sentido de ambiente bucólico.

Renato buscava, a meu ver, a relação com um ambiente dos interiores do Brasil, chão de terra batida, cheiro de chuva, silêncio rompido com o som de água corrente e zumbidos de insetos. A relação com a poesia de Manoel de Barros, no trabalho coreográfico do Renato, penso eu, era da ordem de transformar a palavra em sinestesia; não era uma representação da poesia, mas, talvez, uma tradução intersemiótica: a tarefa de dançar o que se sente sobre o que se lê. E nosso trabalho, como bailarinos – e não “intérpretes”, uma vez que não se tratava de forma alguma de “representar” uma personagem – era de traduzir, em qualidade de movimento, a expressividade das imagens da poesia do Manoel de Barros, do modo que o Renato as percebia. Relação forte entre movimento e imagens poéticas que produziam um senso de afetividade e de identidade que cada bailarino tinha em seu próprio repertório de vivências – experiências sinestésicas, olfativas, auditivas... - e que “recheavam” o movimento coreografado de qualidade expressiva.

Compartilhar memórias e lembranças não deixa de ser um modo de revisitar lugares e reviver a experiência. E é reconfortante e me emociona descobrir que sou feliz e agradecido por ter vivido e aprendido tanto na Renato Vieira Cia. de Dança, sobre a dança e suas relações inextrincáveis com imagens, sons, texturas, memórias e, certamente, sobre o “currículo oculto” da dança como arte, que inclui, de forma determinante nos projetos coreográficos, as pessoas e os afetos entre elas, com o devido acolhimento, respeito e sentido de profissionalismo e colaboração.

Arthur Marques

Rio de Janeiro, 4 de novembro de 2025, 11 horas e 29 minutos de uma manhã nublada.

Arthur Marques é professor adjunto do Departamento de Artes Cênicas da UFPB. Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, em estágio pós-doutoral no PPGEO-UERJ. Mestre e Especialista em Dança pelo PPGDANÇA-UFBA e Licenciado em Dança pela Faculdade Angel Vianna (RJ). Arthur.marques@academico.ufpb.br . @artmaralnet (Instagram). http://arthurmarquesdc.blogspot.com .

“Sobre Despalavra” (2001): Espetáculo da Renato Vieira Companhia de Dança. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=C6Tn0uvDm3I. Acesso em: 04 nov.2025. Canal Arthur Marques. 1.388 visualizações 20 de ago. de 2013. "Sobre Despalavra". Espetáculo baseado na poesia homônima de Manoel de Barros. Renato Vieira Companhia de Dança. Espetáculo apresentado e gravado no Teatro SESI - São Paulo, 2001, para o programa STV na Dança. Coreografia: Renato Vieira. Elenco: Arthur Marques, Soraya Bastos, Gregory Lorenzutti, Sueli Guerra. Postado em 20 ago.2013.


segunda-feira, 20 de outubro de 2025

Experiência sobre "Matéria" - Esther Weitzman Cia de Dança

...Não consegui ver o espetáculo no sábado, dia 18 de outubro de 2025. De acordo com uma postagem no stories da Companhia, a sessão lotou. Por isso, resolvi garantir meu ingresso para assistir "Matéria", da Esther Weitzman Companhia de Dança, chegando cedo, por volta das 19 horas, para o espetáculo que começaria às 20h30min no mezanino do SESC de Copacabana. 
Alguns motivos me fizeram garantir a presença. Primeiro, era o último dia da temporada do espetáculo no SESC de Copacabana e, como todo bailarino sabe, o último espetáculo é sempre o que estamos mais "afiados": tem-se mais tempo para ganhar mais segurança no palco, percebendo com mais acuidade as características técnicas do espaço e as relações que se estabelecem com os colegas de trabalho e, obviamente, o corpo se encontra, de forma geral, mais habituado com as demandas do roteiro coreográfico. Em segundo lugar, era um espetáculo da querida Esther, que assina concepção, coreografia e direção desse que é o trabalho comemorativo dos 26 anos de existência da Companhia.
Ao chegar na bilheteria, nesse domingo frio e chuvoso, encontro Esther, que me presenteia com um convite e com o sorriso e o abraço mais inconfundíveis e carinhosos do planeta. Esther materializa amor e querer bem, em seu olhar, com sua voz e seus gestos. E isso se vê na dança que ela cria. Expectativa: no elenco, Milena Codeço: amiga da época da licenciatura em dança na Faculdade Angel Vianna. Vê-la em cena seria incrível.
Com convite na mão e o programa, aguardo na fila e penso em como o título do trabalho é provocador, uma vez que, o que não se tem em uma dança é, exatamente, matéria: e esse é o mistério da dança como Arte. É da dança a efemeridade como característica, justamente, porque ela se realiza em tempo e espaço... E some. Pesquisadores e estudiosos de dança buscam, não com pouco esforço, captura-la em registros - fotos, vídeos - ou valer-se da memória para tratar dessa arte. Entretanto, um registro não faz jus ao original, e é sempre um recorte parcial do objeto tratado, com muitos vieses ideológicos, uma vez que os olhares são sempre baseados em crenças e valores dos sujeitos. Em outras palavras, qualquer registro da dança - sua imagem, seu relato, sua crítica, entre outras formas - é sempre uma perspectiva que não permite, em sua mídia, capturar a experiência presencial. Um registro e/ou uma memória dá conta de falar mais sobre quem registra - ou lembra - do que sobre o próprio objeto: ambos são imperfeitos e não dão conta do fenômeno da dança quando acontece, em sua completude. 
Pergunto-me: que matéria a Companhia quer tratar como dança? A Companhia promete entregar, na leitura prévia do folder do espetáculo, um mergulho no universo do pesquisador brasileiro Marcelo Gleiser, a partir da noção de "ressacralização da Terra": uma reconexão com a natureza e reconhecimento da raridade e importância da vida no cosmos. 
Abre a plateia. Entro na sala e o público, que se acomoda nas cadeiras, testemunha os bailarinos já no palco, andando e silentes, com a trilha sonora de Gabriel Salsi e João Mello ("Neon1: Shinjuku de Hannah Peel") que ambienta uma atmosfera etérea, o que é auxiliado pela fumaça que define o desenho da luz de Sara Fagundes, iluminando diretamente seis  círculos de luz no chão, que contrastam com a luz levemente azulada, deixando perceber a conexão com as cores dos figurinos criados por Manuela Weitzman: parecem muito confortáveis e que possibilitam movimentos bem amplos, nas cores preta, azul e marrom, vestindo os corpos de Milena Codeço, Rodrigo Gondim, Edney D´Conti, Fagner Santos e Bia Peixoto, que andam em círculos concêntricos, em velocidades variadas. 
Desenvolve-se uma ação sem pausa. O que se vê, de partida, são bailarinos dançando em fluxo contínuo, em moto continuum, que vão transformando as suas trajetórias em espirais, círculos, em todos os níveis, com vibrações, pausas... E recomeços. Formações coreográficas que exploram o sentido de continuidade, de junção e desconexão, sempre movidos pela provocação da força do movimento circular. Física dos corpos: deixam-se embalar e se entregar às forças centrífugas. 
Poeticamente, percebo uma mensagem: tudo o que se apresenta é da ordem de um sistema complexo. O que alguém executa, reflete em todos, de alguma maneira. Todos são responsáveis por suas ações, por seus impulsos, sabendo que o que é feito reverbera no conjunto que dança - e na plateia, que sente, sinestesicamente, o apoio dos corpos que dançam em estruturas invisíveis, "montadas" no/pelo fluxo do movimento contínuo. Imagino que o todo - a dança - é consequência de algumas escolhas, uma vez que todos estão juntos, compartilhando o mesmo espaço e tempo, em experiência afetiva.
Em sua proposição, Esther agrega todos - bailarinos e plateia - em um sentido energético, mágico, que ressacraliza a dança e seu fazer, no que considero o mais necessário de se recapturar na atualidade da condição brasileira e do capitalismo neoliberal: o sentido de comunhão. A retomada da percepção da condição de humanidade como grupo e que todos somos responsáveis por nossas opções individuais que impactam a realidade de muitos: uma realidade sistêmica.
O desenvolvimento em fluxo contínuo da dança que se vê é seguido pela luz e pela trilha, que emociona, arrepia. Noto que o desenvolvimento dos movimentos em fluxo contínuo e circular se torna um vocabulário, muito mais de conexão que de comunicação, entre os bailarinos, uma vez que, aparentemente, não se olham diretamente. Não estão felizes ou tristes: não representam, mas apresentam a expressão do envolvimento com o ritual do movimento compartilhado e engajado com sua continuidade e preocupação com o todo. Momento mágico: todos irrompem em uma corrida que vinha crescendo em aceleração e deixam o palco, no ápice da música, com uma luz branca que encandeia os olhos. Continuo imaginando muitas danças acontecendo naquele instante: o "vazio" é ocupado, no meu corpo, pela imaginação de ações muitas que acontecem ali, microscópicas... E percebo a tensão e curiosidade dos corpos que respiram na plateia, observam e escutam, atentamente, o palco e a música, completando a obviedade da poesia: não existiria som sem silêncio, nem luz sem escuridão. 
"Matéria" traz também outro aspecto: não é mais o corpo como ferramenta da dança, mas a dança instalada no movimento de cada corpo, com suas vivências específicas e suas próprias histórias. Como equalizar os diferentes corpos e suas experiências? Esther convoca os sujeitos a entrarem e sentirem proposições, ao invés de defenderem partituras baseadas exclusivamente na execução de formas definidas por sistemas técnicos+estéticos de dança. Ao invés disso, uma proposição de movimento dá margem para a exploração do seu fluxo contínuo - e o elenco completa essa equação criativa com muita disposição e habilidade. 
Destaco o desenho de luz de Sara Fagundes. Eficiente, mas que poderia dialogar com a dança com mais elaboração e, dessa forma, ajudar a definir mais as cenas. Ainda  assim, a luz é suficiente: considerando a pouca altura do mezanino do SESC, imagino que explorar desenhos de luz com maior complexidade, naquele espaço, deve ser difícil. 
A trilha sonora de Gabriel Salsi e João Mello dialogam totalmente com o projeto concebido por Esther Weitzman. Emociona e completa o sentido de continuidade.
Volto à questão: que matéria é dançada? Talvez seja, de fato, sobre energia. Energia que altera os estados da matéria; Matéria, em sentido amplo, que con-forma a realidade, visível ou não. Matéria de que nós somos feitos: como já disse o astrônomo Carl Sagan, somos todos poeira de estrelas. Nesse sentido, destaco o depoimento de Esther Weitzman, um olhar para a física "[...] como um meio de transcender o pessoal e compreender a relação do ser humano com o Universo foi necessário para eu poder me reinventar". 
Esther e sua companhia prometem e entregam a ressacralização da dança: entregam algo que não se faz sozinho - e que demanda muita entrega e confiança no processo. Entrega, disponibilidade, crença e muito amor. Sim, é preciso muito amor à dança para se manter, na vida e na arte, como artista. Parabéns pelos 26 anos, Esther Weitzman Companhia de Dança (http://www.estherweitzman.com). Todo e qualquer cidadão  brasileiro, artista ou não, deveria se orgulhar de um trabalho - e de uma trabalhadora - de/em dança, que consegue chegar à maturidade.
Seu abraço, Esther, consegue chegar com muito amor ao público - que sai entendendo a inspiração em Gleiser no espetáculo, e que o movimento - visível ou não - é a matéria da dança. Matéria que lida com a presença e com a relação com quem assiste: é sobre comunhão.
"Matéria" estará no teatro Cacilda Becker cumprindo temporada na semana que vem. E eu estarei lá, novamente (!).
Parabéns ao SESC RJ e SESC Copacabana pelo apoio nesse trabalho que reflete a grande possibilidade de termos, como público, acesso a danças de qualidade, quando devidamente apoiadas.