quarta-feira, 17 de junho de 2015

CONTRATO DE COMPROMISSO


Muito se fala que no Brasil temos uma dívida por razões históricas com os negros, e que é necessário ações políticas para tentar sanar os problemas advindos da escravatura e a sua "abolição" no final de século XIX, como bolsas e cotas, por exemplo. Não discordo. Mas há outro problema que ainda tem raízes mais profundas e que parece não chamar mais tanto a atenção: a situação da mulher. 
contrato de professores - 1923
Se o negro foi abolido em 1888, pasme: essa carta contratual para uma mulher atuar como professora temporária é de 1923 (!!!). E atenção: provavelmente ela não era negra, pois se fosse, jamais seria professora nessa época (ainda hoje é difícil). O pensamento conservador e reacionário como expresso nesse documento ainda encontra ressonância nos dias de hoje, atualizado nos discursos imagéticos, verbais ou escritos das mídias.



Pense: já temos direitos iguais na atualidade? Vc sabia que mulheres atletas ou executivas ganham menos que os homens pelo fato de terem vagina e seios? E ainda há homens (e mesmo mulheres machistas) que concordam com isso e que vão além: justificam atitudes por diferenças de gênero. Vá um pouco mais longe comigo: porque Deus é masculino e não DeusA? Quem botou pênis nele? 

Imagine: e se você é mulher E negra E pobre E nordestina E gorda E do candomblé/umbanda E homossexual? 

Resolva: 1. se a abolição foi em 1888, há sinais de que o negro é considerado igual no Brasil e que não temos mais dívidas historicamente construída? E porque a maioria dos infratores - menores e maiores de idade - são negros? É porque negro é geneticamente marginal? 2. Esse contrato foi elaborado em 1923, menos de um século atrás: você vê grandes mudanças na atualidade? Por exemplo, você contrataria uma moça solteira para trabalhar que andasse chupando sorvetes de quem e/ou com quem ela quisesse? 

Histórias recentes. Dívidas crescentes. Mudanças pertinentes. Brasil, feito por você, brasileiro: tome uma atitude - assuma um compromisso com você e com os outros - melhore.

sexta-feira, 1 de maio de 2015

A LUTA DA INFECÇÃO PELO HIV CONTRA O MEME DO PRECONCEITO

De acordo com Richard Dawkins, em seu livro "O gene egoísta" (The selfish gene, 1979), um "meme" é uma entidade capaz de ser transmitida de um cérebro para outro. Com funcionamento similar aos genes, os "memes" se tratam de uma unidade de transmissão cultural. 

Helena Katz, no artigo "O corpo e o meme Laban: uma trajetória evolutiva" (in: MOMMENSOHN, Maria; PETRELLA, Paulo. (Orgs.). Reflexões sobre Laban, o mestre do movimento. São Paulo: Summus, 2006. P. 21 - 59), explica que
"[...] um meme é como um vírus.  Pode, portanto, nos infectar. Assim como genes se propagam de um corpo a outro por intermédio de esperma ou ovos, memes pulam de um cérebro para outro. Nós hospedamos e reproduzimos esses 'parasitas informacionais' mediante toda a nossa produção cultural: artes, religiões, artefatos, tecnologias, tudo". 
Para Dawkins (1979, p. 123), 
"exemplos de memes são melodias, idéias, 'slogans', modas do vestuário, maneiras de fazer potes ou de construir arcos".
Daniel Dennett, no artigo intitulado “The evolution of culture” (In: BROCKMAN, John. (Ed.). Culture: leading scientists explore societies, art, power, and technology. New York/ London/ Toronto/ Sidney/ New Delhi/ Auckland: Harper Perennial, 2011. P. 1 - 25), vai explicar a ideia de Dawkins assim como Katz (2006): a de que se pode pensar a propagação de itens culturais - ou memes - como vírus:
"nós podemos pensar em itens culturais, memes, como parasitas também. De fato, eles são mais como um simples vírus do que como um verme. Memes são supostamente análogos aos genes, as entidades replicantes da mídia cultura, mas eles também têm veículos ou fenótipos; eles não são tão nús quanto os genes. Eles são como vírus". (DENNETT, 2011, p. 7, tradução nossa).
Trago a perspectiva do meme Dawkisiano para entender que uma ideia, quando disseminada em um contexto, pode se replicar e ganhar força: pode sobreviver e permanecer. Assim funciona o preconceito: uma ideia preconceituosa, quando ganha repercussão, passa a ser aceita como uma ideia que tem espaço e tempo garantido nos ambientes culturais - e pode se tornar aceita e sancionada como algo "natural".

Nesse viés, é importante acabar com o preconceito, impedindo a replicação de informações que aludem à ele, em todas as suas formas. Ainda, quaisquer ações que proliferem ideias no sentido de exterminar o preconceito, são atitudes válidas - memes que devem se replicar. 

Lute contra o meme do preconceito com os infectados pelo vírus do HIV, replicando os memes da necessidade de informação sobre o vírus. Não se deixe infectar pelo preconceito: ame o próximo, como a si mesmo. 

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Dança contemporânea: quando "entender" é mais que um plano de aula com equívocos sobre a Arte

Problemático e pouco esclarecedor. O plano de aula abaixo, com o tema "Para entender a dança contemporânea" complica mais do que descomplica, a começar pela defesa das premissas seguintes: 

1. "[...] acabamos por fazer perguntas semelhantes sobre a arte que expressa nossa realidade"; e 
2. "[...] entendendo o que é a dança contemporânea e que retratar o momento que vivemos hoje é uma de suas principais propostas".

Só para sublinhar minha crítica: a arte já parou de se preocupar em "retratar" a realidade desde o início do movimento impressionista (isso já no final do século XIX). "Retratar" qualquer coisa é tarefa reservada na atualidade ao Instagram (mesmo assim, com muita foto retratada de forma manipulada pelos flltros...). Fica a dica: professores de dança, estudem!!! E esqueçam as fórmulas prontas na Internet: elas só servem para casos específicos - isto quando não escamoteiam muitos equívocos.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2015

Homossexualismo e Biopolítica: "O jogo da imitação"

Em 7 de junho de 1954, Alan Turing - matemático, criptoanalista e cientista da computação britânico, suicida-se. Turing foi acusado de crime de prática homossexual, condenado à terapia hormonal obrigatória pelo tribunal inglês para ser curado da homossexualidade. Como efeito do "tratamento", Turing, inventor da "máquina de Turing" - precursora dos computadores, suicida-se.
Turing auxiliou o governo britânico a vencer a 2a Guerra Mundial pela sua invenção que decodificava mensagens criptografadas dos nazistas.
Entretanto, o governo entendeu que Turing era "doente" - e o sentenciou a um tratamento obrigatório que o levou à morte.
Na atualidade, temos no nosso país e no mundo políticos e dirigentes que acreditam no homossexualismo como perversão e/ou doença a ser "tratada" - e ainda um Eduardo Cunha que quer implementar um "Dia do Orgulho Hétero" - como se  heterossexuais sofressem ou já tivessem sofrido historicamente algum tipo de enfrentamento social.
Hoje, no metrô, escuto "pacificamente" e basicamente coagido, uma multidão de heterossexuais felizes cantando com muito afinco "Olha a cabeleira do Zezé...Corta o cabelo dele!", a caminho do bloco carnavalesco. Sinto vontade de chorar.
E a angústia se torna maior ao terminar de assistir "O jogo da imitação" - filme brilhante sobre a história de Alan Turing que, lamentavelmente, só obteve perdão da Rainha da Inglaterra (aquela vaca que nunca sequer lavou um prato na vida e que deveria pedir perdão ao mundo pelos saques, chacinas e escravidão que vitimou povos e nações) no ano de 2013(!!!)...
...E me sinto mais triste pq ainda há os que acreditam que homossexualismo é "opção", safadeza ou algo perverso - e que, sendo assim, eu sou um ser humano "diferente" e que preciso lutar ainda para ter meus direitos como cidadão, indivíduo e sujeito respeitados: para que eu não precise ter o mesmo destino de Turing - além da morte social e política, como querem os dirigentes que buscam me cercear dos meus direitos.
Sinto-me angustiado.

sábado, 14 de fevereiro de 2015

Sobre opinião pública, manipulação mediática e impeachment

Acredito que o texto a seguir seja pertinente para se pensar a respeito da potência da manipulação mediática no contexto atual e a importância que os media ocupam na atualidade, como dispositivos de poder.

O texto foi extraído de: 
SODRÉ, Muniz. Antropológica do espelho: uma teoria da comunicação linear e em rede. 8a.ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2013, p. 42-44.

Não é nada novo o conceito de opinião pública - produto ideológico da Revolução Francesa. Resultado totalizante das opiniões individuais da cidadania, ele se legitimava como uma espécie de substrato ético e apresentava-se como uma entidade moral e fiscalizadora dos três poderes institucionais da república. Mas só a partir dos anos 1930 no século XX é que os franceses introduzem este conceito no discurso da ciência política, dando margem ao surgimento da medida estatística do substrato coletivo, administrado por institutos de pesquisa. A disseminação dos métodos de modelagem matemática da opinião é, no entanto, um fenômeno norte-americano.
Essa ‘opinião’ é instrumento de um novo regime de visibilidade pública e, portanto, um novo tipo de controle. Tende a não ser mais do que pura imagem ou objeto inexistente: ‘[…] Na realidade, o que existe não é a ‘opinião pública’ ou mesmo ‘a opinião avaliada pelas sondagens de opinião’, mas, de fato, um novo espaço social dominado por um certo número de agentes - profissionais das sondagens, cientistas políticos, conselheiros em comunicação e marketing político, jornalistas, etc. - que utilizam tecnologias modernas como a pesquisa por sondagem, computadores, rádio, televisão, etc.; é através destas que dão existência política autônoma a uma ‘opinião pública’ e, em consequência, transformando profundamente a atividade política tal como é apresentada na televisão e pode ser vivida pelos próprios políticos’ (CHAMPAGNE, Patrick. Formar a opinião - o novo jogo politico. Petrópolis: Vozes, 1988, p.32).
Isso que vem se chamando de ‘novo’ jogo político já existe há bastante tempo.

Há mais de 70 anos, Walter Lippmann, um importante jornalista de seu tempo, em seu livro Public Opinion, desconfiava das afirmações de que os cidadãos baseiam suas decisões políticas e sociais no estudo objetivo dos fatos pertinentes. A maioria das nossas decisões se baseia no que ele chamou de ‘imagens de nossas cabeças’, isto é, percepções e preconceitos estanques. A ideia   de uma opinião pública informada decidindo questões e ações, disse ele, é, em grande parte, uma fantasia desejável; a tarefa de dirigir o país é realizada pelas elites, comenta Dizard (DIZARD, Wilson. A nova mídia - a comunicação de massa na era da informação. Zohar, 1998, p. 51-52).

Isto significa que ‘a opinião pública não existe’, conforme têm sustentado sociólogos como Pierre Bourdieu, Patrick Champagne e outros? O que quer dizer então da convicção de sérios analistas da política norte-americana de que o impeachment do presidente Bill Clinton, em virtude do escândalo sexual com uma estagiária da Casa Branca, teria sido evitado apenas pelo peso da opinião pública? É por demais complexa e obscura a trama dos acontecimentos, mas pode-se levar principalmente em consideração as afirmações de outra linha seria de analistas (dentre as quais a própria primeira-dama do país) no sentido de que a tentativa de impeachment foi de fato um quase golpe de Estado manobrado por facções direitistas. Assim como no caso do termino da guerra do Vietnã, as determinantes do resultado final ocorreram nos bastidores do poder, na forma dos velhos arcana imperii ou segredos de Estado”.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Para ser de fato uma pátria educadora

Artigo do professor e sociólogo Carlos Alberto Rabaça, publicado no Jornal O Globo, em 26.01.2015.
Ótimo para ser trabalhado em sala de aula alunos de licenciaturas.

quarta-feira, 19 de novembro de 2014

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

COTAS e BOLSAS - PRA QUE TE QUERO

Uma facefriend, pedagoga, me perguntou o que eu achava sobre as cotas.
Achei importante compartilhar, pois a inquietação dela é também a minha e acredito que também pode ser a sua.

Vanessa Veiga: "Bom dia! Desculpe. Ontem fui ajudar minha filha num trabalho do colégio e não voltei mais. Só um comentário sobre as cotas: SOU TOTALMENTE À FAVOR. Só acho que merecia uma revisão... Acho que deveria abranger TODOS os alunos da rede pública de ensino... Não só negros e pardos pois há brancos também nestas condições. Conforme apontei ontem, nossa Presidente "aumentou" o número de integrantes da Classe Média, tornando pessoas humildes, "mais ricos" da noite para o dia... Isso os afasta destes benefícios tbm. Estudei em escola pública a vida toda. Sofri para entrar numa Universidade... Meu colégio não oferecia embasamento suficiente para que eu tivesse autonomia para passar... Fiquei em "reclassificação" na Uerj (História) e não entrei... Quantos "brancos" como eu passam pela mesma situação? Minha mãe é funcionaria pública, divorciada, nos criou sozinha, meu pai NUNCA a ajudou... Vida dura a nossa de brasileiro, meu amigo. Por isso não engulo o Governo.
Me conte sua opinião. Gosto de ouvir histórias. Beijo grande e bom dia".
Arthur Marques: "Tb sou defensor das cotas e das bolsas como PROUNI. E, da mesma forma que vc pensa,  acho que as revisões são extremamente necessárias.
Sei da lacuna histórica de prejuízo da população negra e índia ao acesso - não apenas à educação.
Entretanto, nos dias atuais,  para dirimir esse mal histórico, é preciso um estudo aprofundado na forma desses benefícios. Tenho um forte problema conceitual com que me pego nesta questão. Como pesquisador,  trabalho com o conceito de mestiçagem/hibridismo.  O referencial teórico com que trabalho defende que o Brasil é uma nação mestiça, barroca "de partida", o que significa dizer que os objetos culturais produzidos em nosso país (e na América Latina)  são extremamente mestiços. Não que outras nações tb não tenham objetos culturais mestiços, mas a América Latina apresenta a mestiçagem como o conceito fundante, de origem histórica,  da própria constituição do continente por suas misturas ou hibridismos.
De acordo com o professor da PUC-SP, Prof. Dr. Amálio Pinheiro, o conceito de mestiçagem/hibrisdimo é usado para analisar OBJETOS, e não SUJEITOS, que, na análise não podem ser desconsiderados, mas que uma cultura não pode ser definida ou estudada apenas por seus sujeitos, mas pelos seus objetos.
Entretanto,  a análise lógica que pode se ter a partir do que os autores defendem é de que o caráter barroco/mestiço/híbrido está incrustado no povo, assim como na cultura.
Sendo assim, como entender e contextualizar, hoje em dia, o benefício às cotas, se todos somos mestiços e pertencentes à uma cultura híbrida?
Alguns defendem o ponto de que "você é se assim se reconhece". Ou seja, o negro só é, numa nação mestiça, se assim se reconhece, nos aspectos culturais e identitários (de sensação de pertencimento). Concordo um pouco com essa ideia,  pois conheço, por exemplo, negros que não se reconhecem pertencentes à um grupo cultural afrodescendente. Isso ocorre justamente pelo fato de que as culturas são híbridas e a constituição dos processos identitários - de reconhecimento e pertencimento a determinado grupo cultural - depende de muitos fatores.
Recentemente,  um moreno de olhos azuis conseguiu o benefício das cotas, "provando" (não sei por quais meios) que era negro. E quem somos nós,  diante de uma nação mestiça, de dizer que ele não era?
O assunto é polêmico,  como você vê.
E, ainda, tem a questão da pobreza, que pessoas de pele branca tb sofrem com a dificuldade do acesso.  Como duzer que elas não têm direito às cotas/bolsas?
É complicado. Não é razão para que eu não "engula" o governo - há pessoas que pensam nessas questões e tentam fazer com que o benefício das cotas seja justo, mas há um problema entre lei e realidade: um programa como esse, precisa de um estudo de impacto e de aplicação - se sabe disso, mas a urgência do benefício era tão grande que se aprova e se começa a fazer uso, para depois "aparar as arestas". Isso aconteceria em qualquer governo que tentasse instituir as cotas/bolsas.
Como vê,  o problema reside na grande distância que se faz - ainda hoje - entre teoria e prática.
Como resolver? Não sei te dizer. Apenas indico um caminho: há de ir se "aparando as arestas" e resolvendo,  aos poucos, problemas que vão surgindo, como o caso do moço moreno de olhos azuis que se autodenomina negro.
Enfim, são muitas as questões.  A única coisa que posso te dizer é que o melhor é que as cotas estão aprovadas por lei - o que era mais complicado.  O lance agora é resolver os problemas. E, pelo que tenho visto, eles têm tentado - o que, pra mim, já é muito válido, num país onde o acesso é tão difícil para todos, em especial para quem se reconhece negro E pobre. Grande abraço e bom dia".
Vanessa Veiga: "Eu adorei sua explicação. Só acrescento o seguinte pensamento: talvez o rapaz branco de olhos azuis fosse apenas um rapaz humilde, com infância pobre como eu e você, estudante de escola pública. Então, ele, eu, você e o menino negro da carteira ao lado da nossa, teríamos o mesmo direito diante da Lei se o espaço fosse para estudantes menos favorecidos no geral. Não seriamos classificados por "cor", mas por condições, entende? Pode usar a pergunta e use a sua explicação tbm q ficou ótima mas considere meu raciocínio sobre igualdade pq é isso que as pessoas precisam entender: negros, brancos, amarelos, somos todos iguais. Beijocas".

As questões são muitas e as respostas, poucas e complexas. As soluções - aplicação prática da resposta - têm um grau de complexidade ainda maior.
Que saibamos lidar com o velho problema da teoria X prática e que a política não desconsidere esse dilema que sempre acompanhou o homem desde a instituição das universidades.

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

A IMPORTÂNCIA DE VARIAR AS REFERÊNCIAS

Qualquer fonte de referência, livros, revistas ou pesquisas, independente de títulos que sancionam suas validades,   têm valores e ideologia que operam em seus discursos.
As fontes de referência de qualquer informação veiculada têm uma visão de mundo (por exemplo, de direita ou esquerda,  capitalista, fundamentalista, entre outras) e, logicamente,  vão enxergar o mundo com essa visão e defendê-la com seus argumentos.
Ao se buscar acesso à essas mesmas fontes ou informações, mostra-se que o conteúdo expresso interessa e tem a ver com a própria visão de mundo do sujeito, que concorda com esses discursos.
Uma forma de sair disso, um efeito mesmo da informação e do acesso à ela, é buscar outras fontes e não apenas manter as mesmas pesquisas sobre assunto no mesmo dispositivo (computador,  celular). Há dispositivos físicos e virtuais que também operam ideologicamente. Não é uma operação de inteligência artificial, mas de organização e equação de conteúdos e acessos, até mesmo para facilitar a velocidade do acesso e o consumo.
Os cookies, registrados e alocados no seu dispositivo e os algoritmos virtuais (como os que trabalham no Google) sempre vão lhe dar acesso à informação de coisas afins para você ler ou mesmo comprar. Prova disso é prestar atenção às propagandas de lojas ou produtos que aparecem para você ao acessar alguns websites: elas irão se remeter em termos de conteúdo à última compra que você fez na internet ou busca que você fez.
Quando se acessa determinada informação,  esse acesso dá acesso à outras informações similares.
O ser humano também faz isso: escolhemos, em um mesmo jornal, os assuntos que nos interessam. Lemos com mais interesse os que nos agradam. A internet faz esse trabalho para você e tenta selecionar conteúdos que possam ser interessantes para você. E faz isso de maneira até manipulatória, para que você acesse coisas que você possa ler, comprar ou "clicar".
Em outras palavras: não é tão fácil fugir da hegemonia de um discurso.
Procure examinar outras fontes.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

IGNORÂNCIA PLURALÍSTICA - UM EFEITO DA INFORMAÇÃO

https://www.facebook.com/ticosantacruz/photos/
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Li essa frase do Tico Santa Cruz e lembrei de algo muito importante.

Existe um efeito de comunicação chamado "Pluralistic Ignorance" - como descreve o autor Clive Thompson em seu livro "Smarter Than You Think - How Technology Is Changing Our Minds For Better" (New York, The Penguin Press, 2013, p. 253). O conceito foi desenvolvido por Andrew K. Woods e apresentado a Thompson.

Trata-se de um efeito da informação: ele ocorre quando um grupo de pessoas subestimam o quanto outras ao seu redor compartilham de suas atitudes e crenças - e isto é um grande impedimento para a mudança social. De acordo com Thompson, isto ocorre por questões psicológicas: as normas sociais do passado podem influenciar em muito a nossa memória, mesmo que estejam se dirimindo de pessoa pra pessoa com o passar do tempo. Por exemplo, no Brasil, tivemos um regime de ditadura política muito severo, com sua pior fase culminando na década de 1970. Pode-se acreditar que já passaram-se 4 décadas e que os efeitos cognitivos do "cale-se" não estejam mais presentes nos corpos dos brasileiros. Entretanto, a Ignorância Pluralística é um efeito que denota que a memória do passado pode ter mais influências no cognição do que se imagina.

É um efeito que acontece em quase todos os domínios das atividades humanas: mas acontece principalmente porque não sabemos o que se passa na cabeça das outras pessoas.
Exemplo: quando você tem uma opinião sobre uma coisa e acha que a maioria das pessoas ao seu redor não concorda com você - daí você se retrai e não expõe sua ideia. Para o autor, a única forma de lutar contra a "Ignorância Pluralística" é aumentar de forma ativa o fluxo de informação, deixando as pessoas saberem os pensamentos e visões invisíveis das outras.

Vamos lutar contra a "ignorância pluralística": tornemos públicos os nossos pensamentos e ações, para que ocorra uma mudança social significativa através do reconhecimento de outras pessoas que pensam e agem como você, como bem explicou o Tico Santa Cruz - para que as pessoas saibam que não estão sozinhas.

Compartilhar suas idéias é um ato político em busca de pares: tentar convencer o outro a pensar como você já é um abuso.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Estudo da improvisação na Dança Contemporânea para o desenvolvimento do potencial criador individual e da composição coreográfica

A improvisação na arte contemporânea ocupa lugar de destaque como estratégia para criação. Além disso, no universo da Dança Contemporânea, vários autores discorrem sobre a sua importância como prática e elemento indispensável nos estudos para formação de bailarinos, coreógrafos ou professores. Entre tantos, pode-se citar alguns, como Jacqueline Smith-Autard, em “Dance composition” (2000), André Meyer Alves de Lima, em “Helenita Sá Earp e suas propostas para abordagens criativas da formação técnica de intérpretes na dança contemporânea” (1999) e Helena Katz, em “O coreógrafo como DJ” (1998). Outros autores tratam da importância da prática do improviso como ferramenta educativa tendo a dança como disciplina escolar, tanto para ser aplicada nos currículos de ensinos médio e fundamental como no ensino universitário, em graduações e licenciaturas em Dança. Entre alguns, situam-se Barbara Haselbach, em “Dança, improvisação e movimento: expressão corporal na Educação Física” (1988) e, no Brasil, os estudos de Isabel Marques em “Dançando na escola” (2003) e “Ensino de dança na escola: textos e contextos” (2001).

Faz-se necessário investigar onde reside a importância da prática da improvisação para se entender a validade de sua aplicação para o desenvolvimento do potencial criador do profissional da Dança Contemporânea em processos compositivos coletivos ou individuais. Improvisação é, em primeiro lugar, uma atividade criativa. De acordo com Haselbach (1988), improvisar significa executar algo, sob certas condições, não previamente planejado. Pode ser entendida como a prática de se adaptar à dificuldades (por exemplo: ao tema, ao grupo, ao objeto, à música, entre tantos outros elementos), tornando-se ponto de partida para uma mudança individual ou composição. Para a autora, improvisar significa também dar uma forma espontânea. Haselbach (1988) diz ainda que improvisar pode ser vista como uma motivação (estímulo, resultado, tensão de necessidade) para o movimento: uma expressão do objetivo, que mais tarde se torna significativo. Assim, o improviso pode ser visto como uma atividade motivadora ou etapa preparatória ou, ainda, campo experimental para as composições em dança. Entretanto, além disso, ela também tem um objetivo próprio: seu valor está no desenvolvimento da capacidade de criação espontânea e da sua expressão.
A importância da improvisação está em uma série de possibilidades que são acionadas a partir de sua prática. Pode-se entender que, além das já citadas, a improvisação possibilita ou proporciona o desenvolvimento da linguagem corporal, como atividade processual. Sobre esse aspecto, Lola Brickman em “A linguagem do movimento corporal” (1989), descreve que é mais valioso o processo de desenvolvimento em si que o eventual resultado que se obtenha, porque não se trata de chegar a uma particular forma única, mas às formas mais enriquecidas possíveis.
Parecendo concordar com Brickman (1989), Katz (1998), quase uma década depois, apoiada em estudos da cognição e da semiótica, explica que um corpo pode ampliar seu vocabulário motor quando improvisa, desde que tenha “colecionado” previamente muitas e variadas experiências ou conhecimentos motores. De acordo com a autora, a improvisação atua de duas formas: tanto para aquisição de vocabulário, produzindo um outro (a), quanto para buscar conexões inusitadas com o vocabulário corporal já estabelecido (b). Dessa maneira, o corpo pode produzir através da improvisação muitas formas e enriquecer as que já conhece.

Katz (1998) traz à tona a discussão de que os coreógrafos dos anos 1990 retomam a improvisação como técnica de composição. Entretanto, a retomada da improvisação para a produção de dança naquela década (e ainda na atual, como pode se verificar nas criações de dança de hoje no Brasil e no exterior), não se trata, para a autora, uma mera nostalgia das experiências da Judson Church dos anos 1960, nos Estados Unidos; ao invés disso, coreógrafo contemporâneo é pensado como um DJ – um misturador autoral de materiais preexistentes – devido a um resultado evolutivo de contaminação da dança pela indústria cultural. Para o DJ, assim como para o artista contemporâneo e, principalmente, para o artista improvisador em dança, a improvisação é um fazer que opera com informações que estão organizadas. De acordo com Katz (1998), para improvisar de forma inovadora, um corpo precisa ter colecionado muitas experiências motoras e as experiências confirmam que quanto mais sólida for a formação deste corpo, mais apto ele estará para realizar as desarticulações que pretende, ou seja, a sua capacidade de inovar depende totalmente da sua habilidade em haver adquirido muitos conhecimentos motores.

Para fins de composição, um coreógrafo pode se manter como observador externo de experiências individuais e selecionar materiais nascidos neste processo (“editando”), adaptando-os ao seu projeto. De uma forma ou de outra, sendo improvisador ou selecionando material de improvisadores, o coreógrafo está agindo no momento, trabalhando com “material” preexistente internamente, organizando informações no instante mesmo da cena que se constitui.
Vale salientar que ainda existem trabalhos de dança que se baseiam unicamente na improvisação como forma de apresentação, como nas “jams” (rodas de improvisação), onde se apresentam os praticantes da chamada “contato-improvisação” (contact-improvisation), prática difundida por Steve Paxton, bailarino americano que criou essa linguagem de dança nos anos 1960, juntamente com outros artistas da Judson Dance Theater.

Christine Greiner, professora do Curso de Comunicação e Artes do Corpo da PUC/SP, autora de “O corpo: pistas para estudos interdisciplinares” (2006), diz que há um ponto em comum entre as artistas da performance e os improvisadores da dança. Ambos testam a gênese de movimentos no ato, a partir de uma categorização do mundo ao redor com eficiência, o que a autora chama de percepção direta, uma ação interna que se organiza praticamente no momento. Há uma diferença que ocorre no caso do bailarino que elabora uma coreografia e daquele que improvisa no instante presente: um organiza relações recorrentes, o outro, busca transitar pelos aspectos referenciais singulares da experiência em processo, em tempo presente. Ainda de acordo com Greiner (2006), no momento em que a performance acontece, ocorre uma ambivalência entre a pesquisa de toda uma vida e o modo como o fenômeno se dá a ver naquele instante. Por isso é que tantos artistas defendem que a performance não representa nada, apenas “apresenta” uma idéia, um conceito, algumas possíveis relações. Da mesma forma que na performance, a Dança Contemporânea também atualiza esse pensamento: de que a dança, desde os experimentos corporais do Judson Dance Theater, não representa, mas se apresenta.

Sobre esse aspecto, Jussara Sobreira Setenta, professora adjunta da Escola de Dança da UFBA, em “O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade” (2008), constrói sua tese. Para a autora, existem danças performativas e outras não performativas. Ela utiliza a teoria dos “atos de fala” de J. L. Austin, que parte da premissa que falar é uma forma de ação: há falas ou proferimentos que são constantivos (aqueles que descrevem e afirmam) e outros que são performativos (aqueles que se produzem enquanto ação da linguagem). Para Setenta (2008), utilizando o recurso do reducionismo interteórico para aproximar a linguagem verbal da linguagem corporal, existem danças performativas (aquelas que se comunicam uma idéia e a realizam no tempo presente, geralmente utilizando a transformação dos vocabulários da dança) e as danças não-performativas (aquelas que usam vocabulários preexistentes para apresentar uma idéia). Sobre a teoria de performatividade de Setenta (2008), as danças que utilizam a improvisação como um processo compositivo, são danças performativas, pois apresentam suas idéias no momento em que estão sendo dançadas, inventando no instante presente a sua forma de “dizer” com o corpo.

A composição em Dança Contemporânea, tanto individual como em um processo coletivo, deve levar em conta não apenas o aspecto de saber improvisar, mas um pensamento aberto para experimentações com linguagens integradas pode ser extremamente rico para o artista que lide com o trabalho de compor coreograficamente, pelas trocas e trânsito de informações que a transdisciplinaridade de linguagens artísticas pode proporcionar, tanto no corpo cênico quanto no produto artístico como um todo.
 
Outro ponto que não pode ser esquecido é o fato de que as produções em Dança Contemporânea, apesar da liberdade que deve ser dada e permitida às interações de linguagens artísticas nos projetos compositivos, é que a técnica não deve ser abandonada. O acabamento estético é interdependente das escolhas e do uso da técnica nos procedimentos metodológicos.
Sobre esse aspecto, concorda-se com a Profa. Dra. Jussara Miller, em “Os sentidos na dança: o movimento como vetor de emoções” (publicado nos anais do VI Seminário Interno do Departamento de Arte Corporal da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ, em 2009), quando ela diz que o mapa de criação na cena contemporânea é flexível, e que a idéia de técnica como caminho e processo de investigação, não apenas como resultado almejado de habilidades possibilita a abertura para exploração de outros novos trajetos.

Todo trajeto é trilhado com parcerias importantes. Toda ficha técnica de um trabalho, por mais autônomo que seja, no sentido de que apenas conte com um criador-intérprete em cena, conta também com o auxílio de um outro que conjuga forças e experiência na composição artística.
Ainda de acordo com Miller (2009), a criação cênica contemporânea se revela cada vez mais um processo colaborativo na medida em que há ações criativas que envolvem diferentes colaboradores, pesquisadores-criadores que abordam o trabalho, em um resultado onde as fronteiras são “borradas” pela contaminação múltipla dos atuantes. Por conta dessa múltipla colaboração entre artistas que dançam, compõem trilha sonora, executam e concebem um figurino e um cenário, entre tantos outros possivelmente envolvidos, em uma miscelânea onde se constitui tarefa árdua delimitar o campo da autoria, Miller (2009) conta que se faz prudente e necessário para a criação o processo de escolhas entre todo o material que é vivenciado. “Editar” o material levantado pela pesquisa criativa, aqui utilizando um termo comum, atualmente, tanto para a música contemporânea quanto para o vídeo e o cinema.

A importância da improvisação para a dança, como estímulo para a criação, é ainda debatida por autores que escrevem sobre a Dança-educação. Marques (2003;2001), defende o uso da improvisação e da composição coreográfica inclusive como a forma de dança ideal para ser aplicada na escola, dadas as possibilidades de descoberta do movimento e do estímulo a criatividade que elas podem proporcionar ao praticante, associado ao estudo da coreologia (choreology), de Rudolf Laban. Para Marques (2001), Laban visava o domínio do movimento saudável e, o realce da harmonia pessoal e social promovido pela observação exata do esforço. A autora cita ainda o trabalho de Valerie Preston-Dunlop, discípula de Laban, que defende que o estudo da coreologia no ensino da dança enfatiza a possibilidade de discriminação, percepção e avaliação diferenciada da dança em suas várias modalidades: pesquisa, educação, escrita, performance e coreografia. Aqui, abre-se um parêntese para complementar o pensamento de Marques (2003;2001) para lembrar das pesquisas e estudos da professora emérita da UFRJ, Helenita Sá Earp. O trabalho de Helenita Sá Earp sobre os parâmetros da dança (Movimento, Tempo, Espaço/Forma e Dinâmica) são importantes para a formação do profissional de Dança Contemporânea - o bailarino-intérprete e/ou criador de composições individuais e/ou coletivas. Earp utiliza alguns aspectos da teoria de Laban, e , parecendo concordar e complementar os estudos do pesquisador alemão, no sentido de sua visão de dança como campo exploratório para o domínio do movimento.

A improvisação é uma estratégia que faz parte dos processos atuais de composição que mais influenciam o fazer artístico na cena contemporânea. Para efeitos do desenvolvimento do potencial criador individual e da composição coreográfica coletiva, é inquestionável a importância de um processo que envolva a improvisação juntamente com o conhecimento de parâmetros do movimento (tempo, espaço, peso, fluxo) e da dança (movimento, tempo, espaço/forma, dinâmica), relacionados a outros conhecimentos teóricos em disciplinas como a História, a Anatomia, a Cinesiologia, a Filosofia, a fim de que o profissional de dança possa articular conhecimentos prático-teóricos nas suas escolhas técnico-estéticas. Dessa forma, o artista terá condições de realizar suas criações próximo a convicções oriundas de pesquisas fundamentadas e referenciadas, através do devido apoio/suporte teórico. André Meyer de Alves Lima, professor adjunto do Departamento de Arte Corporal da UFRJ, em “Helenita Sá Earp e suas propostas para abordagens criativas da formação técnica de intérpretes na Dança Contemporânea” (1999), artigo publicado nos Anais do I Congresso de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas, explica que para viabilizar uma instrumentação mais ampla do domínio corporal que possa atender às múltiplas exigências do intérprete-dançarino de Dança Contemporânea é ter em vista um estudo prático somatório de uma vivência simultânea em várias técnicas de dança, juntamente com a prática da improvisação.
 
Entende-se que tanto para preparar um corpo para as demandas da Dança Contemporânea - uma dança que exige versatilidade na formação corporal - quanto para desenvolver projetos compositivos em dança afinados com paradigmas da contemporaneidade, o estudo do sistema Laban juntamente com a prática da improvisação, constituem um trajeto estrutural na competência do profissional que lida com a arte da composição em Dança Contemporânea.
 
01/10/2011.
LINK:
https://www.academia.edu/2117579/Estudo_da_improvisacao_na_Danca_Contemporanea_para_o_desenvolvimento_do_potencial_criador_individual_e_da_composicao_coreografica

REFERÊNCIAS:
BRICKMAN, Lola. A linguagem do movimento corporal. São Paulo: Summus, 1989.
GREINER, Christine. O corpo: pistas para estudos interdisciplinares. 2ª. Ed. São Paulo: Annablume, 2006.

HASELBACH, Barbara. Corpo, improvisação e movimento: expressão corporal na Educação Física. Rio de Janeiro: Ao livro técnico, 1988.
KATZ, Helena. O coreógrafo como DJ. In: PEREIRA, Roberto; SOTER, Silvia (Orgs.). Lições de Dança 1. Rio de Janeiro: UniverCidade, 1998. Pag.11-24.

LIMA, Andre Meyer de Alves. Helenita Sá Earp e suas propostas para abordagens criativas da formação técnica de intérpretes na Dança Contemporânea. Anais do I Congresso de Pesquisa e Pós-graduação em Artes Cênicas, 1999. Pag. 147-151.
MARQUES, Isabel. Dançando na escola. São Paulo: Cortez, 2003.

____. Ensino de dança na escola: textos e contextos. 2ª. Ed. São Paulo: Cortez, 2001.

MILLER, Jussara. Os sentidos na dança: o movimento como vetor de emoções. Anais do VI Seminário Interno do Departamento de Arte Corporal da Escola de Educação Física e Desportos da UFRJ. 2009.