quarta-feira, 11 de agosto de 2021

UMA ESCRITA PERFORMATIVA: A DANÇA EM AMBIENTES FORMAIS, NÃO-FORMAIS E INFORMAIS DE ENSINO

Palestra para a Formação do Departamento da Sessão de Bandas Escolares da Prefeitura Municipal de João Pessoa – PB, ministrada em 06 (seis) de agosto de 2021, das 13 às 15 horas, no auditório do Centro Administrativo. Registro a presença da Secretária da Educação, Profª América Castro, Coordenador Geral Aramis Lins Barreto Filho, Coordenador Pedagógico Rômulo Albuquerque, os Membros da Comissão de Dança: Karol Balystar, Sérgio Lucena, José Emiliano e a cerimonialista, profª Antonieta Soares.

...Vamos falar de dança. Que dança é essa? Prática artística e pedagógica; Onde a dança acontece? Os ambientes de ensino da dança: Características e objetivos; Como se cria e se ensina a dança? Os ambientes e seus objetivos: Aproximações metodológicas.

Cinco de agosto de dois mil e vinte e um. 
Figura 1: Print screen

Quinta-feira, dezesseis horas e cinquenta e cinco minutos. Ops. Agora, cinquenta e oito minutos: No minuto anterior fiz um print screen para você não duvidar da performatividade desta escrita. Estou ansioso e um pouco preocupado – o que não é novidade para quem me conhece: ansiedade me acompanha à tiracolo, desde sempre. Mas chega a ser algo patológico e, a depender da situação, o efeito dos antiansiolíticos quase são neutros.  Sinto dor na mandíbula de tanto ranger os dentes. E meus quase quarenta e seis anos de idade – sou virginiano do dia vinte e nove de agosto – ainda não me deram a maturidade de ter calma em véspera de situação de apresentação pública


Estou sentado na cadeira meio desconfortável do meu escritório e acompanho pela janela – em quadrado, como a canção de Adriana Calcanhotto - que o entardecer chega rápido trazendo mais uma noite fria e de muito vento, o que é típico desta época do ano aqui em João Pessoa. Mas a sensação térmica é menor, porque minhas mãos e pés estão gelados só de pensar que, pela primeira vez desde o início da pandemia, terei de ir a um auditório encontrar com pessoas e falar sobre dança, dançar e ensinar.

 .

Eu ando pelo mundo prestando atenção
Em cores que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo, cores

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca
Uma cápsula protetora, ah!

Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus

Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome
Dos meninos que têm fome

Pela janela do quarto, pela janela do carro
Pela tela, pela janela (quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado, remoto controle

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?

Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto pra quem?

Eu ando pelo mundo e meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor, cadê você?
Eu acordei, não tem ninguém ao lado
[1]

Acabei de notar que as mãos estão suadas.

Tentei ao longo dos anos, como professor, minimizar a questão da ansiedade, partilhando com as pessoas o modo como me sinto, sou e estou, em busca de um laço de afetividade e de identificação nas situações tenho que ministrar uma aula ou colaborar com uma palestra, entrevista, enfim, em situações em que sou instado a me posicionar e me tornar visível. Tento achar identificação com quem me escuta e acredito que escutar, abrindo o diálogo, é um exercício de troca de experiências que sempre promove o aprendizado, quando acontece, simultaneamente, o reconhecimento de lugares de proximidade.

Respiro fundo: Elevo os ombros – contraio e solto junto com a expiração. Isso ajuda um pouco. Mas a minha cadeira nova tem um encosto péssimo. Penso que a vida em modo de “remoto controle” – outra vez, lembro de Adriana Calcanhoto, - tem tornado os modos presenciais um novo desafio. Passei tanto tempo me ajustando corporalmente ao modo remoto – e, quando digo “corporalmente” me refiro a corpo e mente como inextrincáveis –, que fico aflito com a ideia de estar com pessoas em um mesmo ambiente, mesmo seguindo protocolos de controle e segurança com relação à pandemia do Covid-19.

A pandemia é uma das razões da ansiedade aumentada. A outra, a perda do hábito de uma situação presencial de falar sobre a dança: uma paixão e, ao mesmo tempo, uma arte que me acompanha e me transforma desde criança. É sobre falar de algo que eu amo e estudo que a ansiedade e as lembranças agora me fazem chorar de emoção.

Figura 2: Nika
Pausa. Água no copo. Banheiro. Água no rosto. Lágrima enxugada e óculos desembaçados. Reunião pelo Google Meet. Problemas e desabafos entre parceiros de trabalho. Acabou agora e me sinto bem melhor. Dezenove horas e cinquenta e sete minutos... O tempo corre: preciso focar na palestra.

 Vejo a Nika (minha pequena cadela da raça Schnauzer) confortável, deitada no sofá atrás de mim. Imediatamente, lembro que, principalmente, em modos remotos de existência, é preciso saber pausar e compreender o tempo de cada corpo, encontrar lugares possíveis de agir mesmo na necessária rigidez das normas, cobranças, protocolos. É preciso achar conforto, trabalhando dentro das possibilidades: em quaisquer que sejam os ambientes.

 

Figura 3: Janela. 20h31min

Acho que transito por ambientes de ensino da dança como por mundos aparentemente diferentes e desconexos. Acredito que a força das práticas está no diálogo constante com as teorias e vice-versa. Em se tratando de fazer dança – criar ou ensinar – cada ambiente demanda a compreensão do artista-docente de que são diferentes as danças, são diferentes as pessoas e os objetivos que elas buscam.

 

Talvez seja importante agora, prezada/prezade/prezado artista-docente/coreógrafo(a)-professor(a)[2], partilhar algumas questões que trago para refletir com você:

 

            Espero que você tenha paciência comigo: falo muito. E sou meio inseguro, às vezes, porque não sei se consegui ser entendido. Vou me “policiar” para não me estender muito. Trago alguns aspectos para refletir a partir dessas questões. Ficarei muito feliz se puder escutar você depois e refletirmos juntos sobre nossos “fazeres” como artistas-docentes da dança.

Divido essas questões em tópicos para me organizar no que eu acho    relevante dividir com você – sempre “eu”, né? Espera. Deixa explicar direito: De repente, eu estou achando que algo que é importante pra mim pode ser importante para você também... É um “achismo”, ou seja, posso estar errado.

Figura 4: Pausa pra jantar
De qualquer forma, quero deixar registrado que imaginei fazer valer essa oportunidade de trazer essas questões como abertura de um diálogo. Peço perdão, desde já, se não conseguir conexão com você. Mas, também, peço, humildemente, um “voto de confiança” e sua atenção... Depois, você se posiciona: podemos combinar assim? Vou adorar saber como o que partilharei tem a ver com você e com a dança que você faz.

Antes de desenvolver a primeira questão, tive que dar outra pausa. Em tempos de pandemia e ensino remoto, é preciso cuidar de si. E a pergunta que faço agora, com um pedaço de rodela de inhame quente na boca é: se eu não me cuido direito, como vou pedir para que minhas alunas/alunes/alunos se cuidem?

 

1. Que dança é essa? Prática artística e pedagógica


            Gosto de considerar o plural: DANÇAS.

          Não há uma dança, assim como a forma de ensinar e criar não são únicas. Existem FORMAS ou MANEIRAS de ensinar e FORMAS ou MANEIRAS de criar. Existem danças que são ou estão “enquadradas” em “estilos” – como dança do ventre, xaxado, samba, balé clássico. E alguns estilos têm subgrupos, como, por exemplo as chamadas “danças de salão”. São muitas e de vários estilos, embora haja um aspecto que junta - ou “enquadra” - elas num mesmo grupo: o fato de que sejam sempre dançadas por um par de pessoas. Ou seja: o padrão das danças de salão é a dança em par.





            Posso dizer que há um aspecto que “junta” ou “enquadra” todas as danças: o fato que de elas podem ser aprendidas e ensinadas.

            Eu não lembro quando comecei a dançar, mas acho que todo mundo dança, cada um do seu jeito, desde criança. Mas lembro que, desde muito pequeno, eu imitava as danças do grupo Menudo... Você não deve conhecer, mas deve ter ouvido falar... Aqui vai pra você conferir:


...eu também dublava e dançava como a Gretchen, a Madonna... E brincava, no quintal da minha casa, com minha irmã mais nova e as vizinhas, de “fazer show”: pegava escondido uma radiola portátil, discos de vinil e uma cortina vermelha da minha mãe, que sempre descobria o “projeto” quando a gente botava o som “nas alturas”. O “palco” montado no quintal rendia brincadeira para todo o fim de semana, com ensaio e apresentação de coreografias que eu criava com minha irmã e as vizinhas. 

            Meu pai morria de vergonha e brigava comigo, porque dança e dançar – aquelas danças da televisão – eram coisa de “veado”.



Brincar de dançar é sempre uma forma de estimular o aprendizado de uma dança – ou de algumas danças. Se você é um artista-docente da dança, provavelmente, brincou – ou ainda brinca – de dançar.
           

Algumas danças têm padrões de movimento que precisam de ser repetidos, treinados. E o corpo, a partir da repetição de um movimento através do treino, aprende. Ou seja: o treino pode ser entendido como a construção de um hábito. Algumas danças demandam, por razões estéticas e funcionais, um treino mais habitual que outras. E cada corpo tem afinidade para algumas danças que outras, embora o treino possa transformar qualquer dança possível. Mas há de se lembrar que os corpos são diferentes, assim como as danças.


           


            Quando comecei a fazer aulas de balé clássico e jazz, observei muito o modo como meus professores lecionavam. Neste sentido, posso dizer que, ao mesmo tempo em que aprendia a dançar, aprendia também os modos de ensinar de cada professor. Alguns modos se pareciam, mesmo sendo dois “estilos” de dança diferentes. Um padrão que percebi nesses modos foi o fato de que, para aprender um movimento, era necessário observar o modo que o professor executava. O professor demonstrava o movimento, que eu buscava imitar, organizando a informação do jeito que meu corpo podia fazer.

 

Imitar não é fazer igual: é organizar a informação do modo que um corpo pode. O movimento de um corpo nunca é igual ao de outro: pode parecer, mas nunca é idêntico. Ainda, um movimento, realizado uma vez, não consegue ser repetido “do mesmo jeito”: há alguma diferença, perceptível ou não. Isto porque, a cada repetição, o movimento se especializa. Se o movimento repetido fosse sempre igual, não haveria lógica alguma no treino. Treinar é especializar o movimento.

 São vinte e três horas e cinco minutos. Estou exausto e minhas costas estão muito doloridas: tenho quatro protusões discais. Passei muito tempo lendo e digitando. Meus olhos ardem. Tenho o hábito de sempre pisar em uma bola de tênis para massagear a musculatura dos pés. Isso me ajuda a relaxar. 

Quando eu estava em processo de formação, residindo no Rio de Janeiro, eu fazia aulas de balé, jazz e dança moderna diariamente, às vezes, até três aulas por dia, cada qual com cerca de uma hora e meia a duas horas de duração.

Nessa época, na década de 1990, eu achava que imitar era fazer igual. Os astrólogos dizem que virginianos têm mania de perfeição. Eu não creio em astrologia porque não faz sentido para mim. Mas algo fazia sentido para mim, naqueles tempos: eu sempre quis receber elogio do meu professor de dança, e, para isso, buscava repetir o movimento que ele demonstrava – e não o movimento do jeito que meu corpo podia fazer naquele momento.

Figura 5: Meus calcanhares

Aprendi, nesses tempos de pandemia e de ensino remoto, que preciso dormir bem. Fechar os olhos. Prefiro dormir e acordar cedo para continuar com a segunda questão, antes de dormir, preciso da minha bola de tênis. Preciso alongar meu corpo e colocar gelo no calcanhar do pé esquerdo, que quase rompi por trabalhar por anos muitos anos em salas que não tinham chão com preparo específico para a prática de saltos. Tenho uma calcificação no osso calcâneo – um “esporão” – que dói muito e me faz mancar um pouco, às vezes. As protusões discais e o esporão motivaram a busca por outros modos de trabalhar com dança, mas, infelizmente, tive que encerrar a carreira como bailarino no ano de 2012, aos trinta e oito anos.

Há aprendizados que vêm com a dor. Aprendi, com as minhas dores, que só posso ensinar dança do modo adequado se as condições forem adequadas. Aprendi, com minhas dores, que não posso exigir que o movimento de outro corpo seja igual ao meu – nem posso querer que meu movimento seja idêntico, pois isso é uma impossibilidade, considerando os aspectos cognitivos e neuromotores. Aprendi, com minhas dores, a respeitar o meu corpo. E a respeitar os corpos dos outros, que são diversos e, cada qual, muito especial. Cada corpo tem sua dança, mesmo dançando em sincronia com outros. E se todo movimento repetido já é outro, toda dança é nova, mesmo quando reapresentada.

Zzzzzzz...


 

2. Onde a dança acontece? Os ambientes de ensino da dança: Características e objetivos

 

Acordei e dei um pulo da cama. Nika me olha assustada. Dou um “bom dia” apressado para a Mônica – a diarista que estava passando o pano no corredor. Escova de dentes na mão, caneca de café com leite no microondas. Pi-pi-pi: Aqueceu. Mas, certamente, eu já estou mais aquecido do que a caneca: desde o pulo, penso mil coisas, ao mesmo tempo: não terminei o texto da palestra - como vou conseguir comprar o adaptador de mini-Hdmi para VGA-Hdmi para o retro-projetor? – quanto tempo ainda tenho – cancelar a terapia de hoje – espetáculo online de Isabel Marques 20h30min – que horas vou no supermercado? – será que meu computador vai funcionar direito? – será que vai dar tempo de almoçar? - será que...

...Em frente à estante, pego alguns livros. Começo a me organizar. Vou tentar conversar com outros colegas professores-pesquisadores, para me ajudarem nesse trabalho de definição.

A educação é distinta em três tipos[3]. Sejam eles:

FORMAL: A educação que se recebe no sistema escolar;

NÃO-FORMAL: “toda atividade organizada, sistemática, educativa, realizada fora do marco do sistema oficial, para facilitar determinados tipos de aprendizagem a subgrupos específicos da população, tanto adultos como infantis”;

INFORMAL: “um processo, que dura a vida inteira, em que as pessoas adquirem e acumulam conhecimentos, habilidades, atitudes e modos de discernimento por meio das experiências diárias  e de sua relação com o  meio". 

Que aspecto diferencia esses tipos de educação? Vamos, aqui, considerar o critério da intenção. De acordo com este critério, “[...] todos os processos intencionalmente educacionais entrariam na coluna do formal e não-formal, e, por conseguinte, os não intencionais ficariam na do informal”[4]. Mas será que a educação, por exemplo, dos pais – situada no âmbito da educação informal - não desenvolve uma ação educativa com intenção de educar?

Outro aspecto que se pode considerar é o critério metódico ou sistemático: enquanto o ensino não formal e formal é metódico e sistematizado, a educação informal é assistemática. Entretanto, vale pensar essas questões: “[...] os meios de comunicação de massa nos bombardeiam sistematicamente com seus valores (contravalores)?; não há método na publicidade?; não cabe falar em métodos de educação familiar?” [5].

           Meu coração dispara. Profª Antonieta Soares – a cerimonialista – já “botando pressão”. Vou agilizar aqui. Vou logo chamar a referência aqui... Veja a Figura 6:

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Figura 6: GHANEM, Elie; TRILLA, Jaume; ARANTES, Valéria Amorim (Orgs.). Educação formal e não-formal. São Paulo, Summus Editorial, 2008. p. 37

 

        Porque interessa saber esses “enquadramentos” dos tipos de educação? Não basta saber que todos esses modos estão relacionados e que a educação do sujeito e sua formação como cidadão é atravessada por esses três modos?

 

Penso que esses modos de diferenciar os tipos de educação importam, justamente, para atentarmos que existem formas e maneiras de dançar e se ensinar dança. Cada ambiente de ensino informa uma sistematização do ensino da dança, uma metodologia de ensino da dança, que tem a com a intenção do professor – no caso, aqui, com a sua intenção de ensino, sua intenção de educar, coreógrafe/coreógrafa/coreógrafo-professer/professora/professor.


 

3. Como se cria e se ensina a dança? Os ambientes e seus objetivos: Aproximações metodológicas

 

...Penso que você, coreógrafe/coreógrafa/coreógrafo-professer/professora/professor, tem a intenção de educar. Você, assim como  eu, sempre está pensando em modos de organizar tanto suas aulas quanto seus ensaios e coreografias. Posso dizer, de uma forma suscinta, que uma metodologia é um modo de organizar e realizar um trabalho por etapas, a fim de cumprir um objetivo. Nós temos sempre, no cotidiano, de realizar tarefas, seja em casa e/ou no trabalho. Cada pessoa tem um jeito de organizar uma tarefa: para vestir uma calça, você segura a calça e, geralmente, enfia qual pé primeiro - o pé esquerdo ou o pé direito? Para subir uma escada, geralmente você dá o primeiro passo com o pé esquerdo ou o pé direito?

          Por que isso importa? Importa, aqui, para eu conectar a última ideia que gostaria de partilhar com você:

 

Os modos de organizar uma aula, um ensaio ou uma coreografia por um coreógrafo-professor também derivam de seus hábitos.

 

           Há hábitos que você “carrega” quando organiza um trabalho de dança. Por exemplo, em geral, quando o coreógrafo-professor tem uma perna mais flexível que outra, é esta que se torna a perna de um lançamento de perna – ou, na terminologia do balé clássico, um grand-battemént. Quando um coreógrafo tem mais facilidade para girar ou fazer piruetas – pirouettes – para uma direção, é, em geral, esta direção que ele explora coreograficamente. Digo isso porque, em geral, toma-se como pressuposto para o ensino da dança o corpo demonstrativo[6] do professor.

          A partir de tudo o que eu disse, atentando para os modos de ensino que devem ter o educando/aluno como protagonista,



        Em geral, nos ambientes de ensino não-formal da dança, os modos de organizar a aula têm como padrão o corpo demonstrativo do professor. Mas essa não é a única forma: você pode, a partir de hoje, pensar como fazer diferente, e usar também a sua criatividade para novas metodologias. Busque o foco no seu aluno: afinal, é ele quem irá se apresentar em público: você é apenas um agente do processo de educação e formação dele como cidadão.


        Ixi...Não almocei. 12h17min! Mas preciso sair correndo para encontrar você agora! E, depois, vou querer ouvir você. Vamos falar sobre dança?

         

João Pessoa, 06 de agosto de 2021.

Prof. Dr. Arthur Marques

Departamento de Artes Cênicas

Centro de Comunicação, Turismo e Artes

Universidade Federal da Paraíba

Instagram: @artmaralnet



[1] Letra da música “Esquadros”, interpretada e composta por Adriana da Cunha Calcanhotto. Disponível em https://www.youtube.com/watch?v=leL7KSkm97M . Acesso em 05 ago.2021.

[2] O termo “coreógrafo-professor” é utilizado a partir pela Profª. Dayse Pereira da Silva Torres, em  “Coreógrafos de bandas marciais estudantis: Artistas ou professores[?]” (2018) e por Profª. Annyelle Carolina dos Santos Gomes, em “Ensino de dança para balizas de bandas marciais estudantis no município de João Pessoa – PB” (2019), trabalhos monográficos apresentados como Trabalho de Conclusão de Curso de Licenciatura em Dança do Departamento de Artes Cênicas da UFPB, sob minha orientação.

[3] COOMBS, P. H., 1975, p. 27 apud GHANEM, Elie; TRILLA, Jaume; ARANTES, Valéria Amorim (Orgs.). Educação formal e não-formal. São Paulo, Summus Editorial, 2008. p. 32-33.

[4] GHANEM; TRILLA; ARANTES, 2008, p. 37.

[5] Id. Loc. Cit.

[6] A expressão “corpo demonstrativo” é cunhada por Susan Foster em “Dancing Bodies”, in: CRARY, Jonathan et al. (Org.). Incorporation. New York: Urzone, 1992.

quarta-feira, 2 de setembro de 2020

"VOX - Joana D'Arc - As vozes e a dança"

VOX: Joana D'Arc - As vozes e a dança 

Assistência de direção por Jerônimo Vieira.

Assistência de coreografia e produção: Ana Marques

Produção Executiva: Nelson Alexandre

Estreia em 2006, no Theatro Santa Roza, João Pessoa - PB.
Trilha Sonora original composta por Fabiano Diniz. Criação de Plano de Luz e Execução: Fabiano Diniz
Figurino e Cenário por Yon Pontes
Elenco: Ana Marques, Denilce Regina, Gisele Lucena, Nídia Barbosa
Subvenção do Fundo de Incentivo à Cultura do Estado da Paraíba - FIC 2006
Premiado na Mostra Estadual de Teatro e Dança da Paraíba na categoria "Melhor espetáculo" pelo Juri Popular

quinta-feira, 2 de julho de 2020

PANDEMÔNIO, EDUCAÇÃO E BIOPOLÍTICA

Reflito sobre o quadro atual do (des)governo como uma sucessão de desastres, derivados da falta de planejamento. 

Nunca houve debate. Nunca houve um plano de governo apresentado antes das eleições. Nunca houve. E ainda, não há. Só desmantelo. E o desmantelo é irremediável e é sempre culpa de alguém que não ele mesmo - o próprio (des)governo.

Aliás, há um único plano - ou melhor, sonho: a destruição sistemática de um “inimigo” (uma suposta Esquerda política - “suposta”, uma vez que nenhum partido político pode manter um purismo; - aliar-se aos partidos de centro é parte do jogo político para, simultaneamente, manter a governabilidade). 

Essa mesma “Esquerda” estaria, na mesma lógica da suposição, sendo criada repetidas vezes - o tal do "discurso", - e seu pensamento também “aceso” nas ideias do demônio (!!!) - um tal senhor  Freire, confundido com as fotos de outro Paulo, de sobrenome Coelho (!).

As ideias revolucionárias deste senhor seriam reverberadas em práticas catedráticas, em quaisquer instituições de ensino, principalmente nas UFs; assim, elas precisam de exorcismo, já que essa Esquerda demoníaca precisa da benção de pastores e bispos neopentecostais que compõem, curiosamente, alas evangélicas do governo. Além de desafiarem a constitucionalidade do Estado laico, elas somam o Criacionismo às bandeiras contra as Universidades, lugares pecaminosos que produzem Ciência.

Exemplo da perseguição de professores e sua liberdade de cátedra é o afundamento medieval dos avanços pedagógicos na lama do “Escola Sem Partido” - que é, paradoxalmente e inextrincavelmente, um projeto político-partidário. Um de seus derivados projetos, em nível estadual, sugeriu a possibilidade de aulas serem registradas/filmadas, no maior exemplo de panóptico foucaultiano, vigilância que cercearia  o professor em sua práxis de incitar a reflexão junto aos discentes-sujeitos-cidadãos.

Dentro do quadro político que se desenha, os profissionais que exercem as ditas áreas “não-prioritárias”, definidas na mais nova BNCC são, justamente, os que questionam as práticas antidemocráticas e desastrosas, que flertam com o autoritarismo, segregação racial, supremacia branca e outras mazelas que derivam mesmo de inspiração em um bandoleiro que se autointitula filósofo - uó de Carvalho - que sequer completou seu TCC por incapacidade intelectual. Mas o tal  astrólogo (sim - astrólogo) é uma espécie de mentor intelectual do governo.

Além das suas habilidades em proferir palavrões, ele coaduna com a perseguição do mesmo inimigo, tão poderoso que teria sido responsável por todos os problemas brasileiros, inclusive, pessoais e imediatos de alguns cidadãos, evidenciados em frases, muitas vezes, proferidas pela elite branca:
“O PT destruiu minha vida!” 👩🏻👱🏻‍♂️
 Supostas fábricas de inimigos para uma ideologia descabida e um governo sem planejamento e organização, elas sofrem ataques em meio a tiroteios dirigidos aos inimigos em toda parte: aparelhadas, segundo o pensamento persecutório, as Universidades merecem ser extintas - ou devidamente transformadas em centros de treinamento exclusivos  para o trabalho, em prol do capital e do bem-estar neoliberal, livre de críticas e de sujeitos pensantes e cheios de mimimi.

Estamos todos em guerra contra (ou com?) um inimigo-vírus invisível. Mas a (bio)política de alguns governos - onde o Brasil dá exemplo, movido pelo negacionismo da existência de um vírus mortal - pronuncia as identidades das vítimas: as minorias, que atolam hospitais e morrem, aos montes, enterradas em valas rasas, invisíveis, com o auxílio de contagens de óbitos por perfis sócio-econômicos decretadas “desnecessárias”, no intuito de camuflar a falta de planejamento, falta de organização, ausência de competência - e um vácuo emblemático de um Ministro da Saúde.

Enquanto isso, uma voz de fundo, afastando de si a responsabilidade, palavras desumanas e desrespeitosas de tom fundamentalista religioso - em claro discurso de naturalização do horror:

“- [...] mas... Todo mundo morre!”. Bozo.

...e a banalização da morte, em:

“Covid-19 trouxe está trazendo uma morbidez insuportável, não tá legal”. 

Regina Duarte, atriz que ficou conhecida nacionalmente como "a namoradinha do Brasil" e ex-secretária da Cultura, proferiu a frase acima em entrevista para o programa CNN 360 por Reinaldo Gottino e Daniela Lima, publicada em 07 de maio de 2020:

Disponível em: <https://youtu.be/v9gLHrP7RNw>. Acesso em 02 jul.2020.

"Nestes tempos de incertezas devemos recuperar a capacidade que os seres humanos têm de indignar-se diante de todas as formas de violência e de humilhação. O direito à indignação é um dos mais nobres e humanistas dos valores fundamentais da democracia."
 CARNEIRO, Maria Luíza Tucci, em: "Da era da pós-modernidade à era pós-pandemia". Jornal da USP, 09 jul.2020. Disponível em: <da-era-pos-modernidade-a-era-pos-pandemia>. 

 


Trazido pelas elites que transitavam livres intercontinentalmente, o Covid-19 se instalou, e fez “festa” nos leitos das UTIs de hospitais não equipados devidamente, por conta da corrupção. Corpos pobres, muitos e diversos, ao redor do mundo. No Brasil, não se trata de guerra: agora, a contaminação é necropoliticamente um processo de genocídio desferido - principalmente - aos invisíveis socialmente.
Agora, ele age em via de mão dupla: extingue a possibilidade do encontro e desmantela - pela ameaça de morte -  manifestações contra o governo. Ainda, reforça o neoliberalismo capitalista, excluindo digitalmente o pobre do acesso à Educação.



Em contrapartida, professores, nós, assustados, aturdidos e impotentes, vemos tudo acontecendo por telas. E somos forçados a demonstrar que estamos atuando e produzindo, dentro de uma lógica de redes privadas de ensino, em impossível modelo EaD. Educação para todXs? 
É o fatal “tiro no pé”...

Desabafo. Escrevo/digito - e choro.

Antes agentes de transformação do mundo com nossa modesta contribuição na promoção de reflexão junto aos nossos discentes, hoje, andamos de mãos dadas para um corredor estreito, que leva para um lugar onde só alguns são permitidos: os que têm condições de acesso.

Reflita: Hoje, quem é que morre e quem, de fato, mata?

“Tamos juntos”, apesar da distância. Lembrem de  movimentos como a Primavera Árabe, e, recentemente, a revolta pelo assassinato de George Floyd - totalmente disparada digitalmente. Quem sabe a tecnologia, mais uma vez, pode nos acodir - ou nos juntar, realmente?

terça-feira, 9 de junho de 2020

VER PARA SER

O "ver", em geral, vem acompanhado do "compreender". Mas, uma vez juntos, não são inseparáveis.
Para compreender, o sujeito acostumou-se a se olhar para as coisas do mundo e enquadra-las em categorias inteligíveis, para o fácil reconhecimento.
...E os objetos que escapam da compreensão? Fica o questionamento.
O que foge do padrão desarticula as operações de sentido habituais. Novos padrões surgem para dar conta da compreensão. Novas estratégias de categorização emergem. Novos termos, novas identificações. 
E o problema? Qual é?
Na verdade, nenhum. E é exatamente onde reside o problema.
Compreensões de mundo são sempre generalistas. E generalizações são problemáticas, pois homogeneízam o que, muitas vezes, é específico - como subjetividades.
Juntar “num bolo de coisas” é uma forma de se entender o mundo. Processos de identificação são também operações cognitivas: Virginianos, sagitarianos...Flamenguistas, corintianos... Paraibanos, americanos, europeus, argentinos... Negros, amarelos... Homens, mulheres...Gays, trans, bissexuais, héteros...
Processos identificatórios têm importância, mas são generalistas e, muitas vezes, operam por binarismos ou oposições. Às vezes, desconsideram complexidades de subjetividades que não se territorializam ou que não se reconhecem em categorias distintas ou determinadas a priori.
Na liquidez pós-moderna, reconhecer e determinar identidades é, aparentemente, ir contra ao entendimento de corpo e sujeito como entidade processual, plástica e moldável, passível de transformação.
Querer entender o outro atribuindo-lhe categorias a partir do entendimento que você tem de mundo não corresponde, de fato, ao que o outro é: trata-se apenas do que o que você percebe sobre ele.
Talvez a dica para se estar melhor e menos arrogante no mundo atual seja exercitar o ver, sem querer entender. Assim, talvez - apenas talvez - possa-se olhar o outro e as coisas do mundo distante de uma maneira determinista ou através de  um foco direcionado por conceitos previamente armados. Preconceitos, mesmo.
Para ver não é imprescindível entender - pelo menos, pela via da identificação.
Para escapar da armadilha do par "visível + inteligível", o exercício do olhar convoca palavras sozinhas como "apreciar". Apreciar - algo ou alguém - pela sua especificidade: a singularidade daquilo que se observa, que é, antes de tudo, uma construção na/da sua mente.

sábado, 17 de março de 2018

Redemoinho para ver a Dança

Sou muito suspeito pra falar. Victor D’Olive, além de amigo, trabalha no mesmo departamento que eu. E coordena o Coletivo Redemoinho, que se apresentou ontem à noite no #teeteto , na Praça da Paz, em João Pessoa.
Mesmo assim, não vou deixar passar.
“Se essa rua fosse minha” me remete à dois aspectos necessários para se ver dança na atualidade: o primeiro, olhar uma dança pela sua materialidade, pela sua apresentação, e não mais pela sua representação. A dança do Coletivo Redemoinho não é uma dança “que quer dizer algo”, que significa ou encena uma história, uma narrativa estruturada tradicionalmente com começo, meio e fim. É uma dança onde o corpo que se move se apresenta e, com isso, move ideias. O outro aspecto, é a liberdade da interferência e o uso da relação corpo que se move com o ambiente ao redor. A dramaturgia que se constrói, livra o corpo do intérprete-bailarino do enquadramento rígido da execução de um vocabulário de um sistema técnico-estético, pois amplia o seu poder de (re)agir às demandas interativas que surgem no instante. Há a permissão do improviso, da intuição e das interferências externas, aliada ao uso das técnicas de interpretação teatrais e de danças, devidamente usadas como meios para se realizar o projeto dramático no instante da ação. Estruturas de movimento notadamente prescritas, mas que se transformam com a permissão do jogo interativo com o ambiente - reações do público, sons, equipamentos da praça, adereços, chão, roupas, clima, vento... Tudo vira cena.
E o público agradece pela oportunidade de assistir uma dança no espaço público. Uma praça que se transforma em espaço cênico, não mais definido pelo palco, mas construído pelo corpo em movimento.
“Se essa rua fosse minha” desmantela o olhar de quem se acostumou a ver uma dança cênica narrativa. Traz o olhar do público para ver a dança de cada corpo, onde cada um é discurso, pois cada corpo que ali se move carrega uma história de vida e a materializa no movimento.

Assim, a dança do Redemoinho se faz como um ato político. Resolve que o corpo obedece a estruturas de movimento, mas possui a liberdade criativa - e desafiadora - de poder transgredir, com a devida coerência.

domingo, 4 de março de 2018

Entre ISTC e VTNC: uma Isaura

Isaura Tupiniquim ontem deu um show no Theatro Santa Roza (João Pessoa- PB). Literalmente. Sua apresentação me trouxe um sentimento nostálgico - retrô, mesmo. Não sei se pelo visual e pela irreverência meio anos 70, ou se pelas referências múltiplas que me afetaram bastante. Um desleixo organizado e propositalmente reflexivo dos judsonites de Nova Iorque, os gritos de Yoko Ono, o corpo-discurso retumbante dos Dzi Croquetes, o corpo político dos artistas dos EUA na dança de esquerda dos anos 30 e na dança punk dos rebeldes dos anos 80... Referências múltiplas me vieram, necessárias para pensar o mundo de hoje, artisticamente e politicamente.
Corpo místico: orixá brilhante em LEDs ofuscantes; mulher-corpo-deusa-mito-origem; patchwork de sujeitos e ideias; artista, representação e apresentação: tudo junto e misturado. Tudo em uma e uma que está em todXs.
O discurso do corpo de Isaura, o tempo todo, vai nos conectando, nos unindo, metaforicamente, no tecido social e cultural único, reconhecendo nossas singularidades. Somos muitos e diversos - e “ ISTC” ostenta essa ideia num pedestal, dançando.
Para mim, Isaura, a que não é de maneira alguma a escrava, traz o trabalho “ISTC” como algo necessário: alia a fome de viver com a de gritar VTNC para os moralistas de plantão que querem o retorno do “cale-se” no Brasil que há de se Temer.
Embora haja o soluço e o chôro preso do lamento pelos acontecimentos políticos e sociais dos dias atuais, viva a Arte. E viva a dança do corpo que não pode e não quer emudecer o discurso de liberdade. Isaura “samba” - e samba mesmo - (e bem!), e canta: na cara de uma parte da sociedade que devemos nos envergonhar, formada por moralistas e reacionários.



#istc #isauratupiniquim #danca #arte #foratemer

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

INTOLERÂNCIA: GATILHO ATUAL


Jordan Campos, psicoterapeuta, teve uma postagem publicada na Revista Pazes, sobre a questão do ocorrido em uma escola em Goiânia: um adolescente mata dois colegas de classe e fere outros quatro. Disponível em: <https://www.google.com.br/amp/s/g1.globo.com/google/amp/https://g1.globo.com/goias/noticia/escola-tem-tiroteio-em-goiania.ghtml>. 

Sobre a postagem (disponível em : <http://www.revistapazes.com/11936-2/> ),
discordo, em grande parte, do psicoterapeuta. Logo, concordo no que tange alguns aspectos.

O ímpeto de matar - assim como o de morrer - é, obviamente, acompanhado por vários fatores.
Matar é também a materialização de uma morte de si: a impossibilidade da relação e da convivência com o Outro. É a eliminação da Existência por acreditar na impossibilidade do convívio, do diálogo e da tolerância. É o Não ao poder da argumentação.
O que falo - da mesma forma que o autor menciona - não é por um exame, diagnóstico ou avaliação psicoterapeutica: mas são afirmações de um adulto que sofreu - e sofre - bullying (“ing” - desinência de trauma no gerúndio, o que continua, como bem fala o autor do texto) por ser gay. 
Discordando ainda dele, ainda em parte: ele cita que é salutar “(...) aprender a vencer frustrações se SUBMETENDO a elas de forma sadia e com orientação”. Seriamente, fazendo uma leitura (bio)política (que difere diametralmente de “achismo”), essa não é, definitivamente, a saída. 
Ninguém deve aprender a se SUBMETER para ser aceito. Ter frustrações - e superá-las - se dá com o aprendizado do respeito: mas o respeito que lida com a noção de não dar o controle da sua vida aos outros. Estar no controle de sua vida é saber o que lhe é saudável: e isto não significa ser SUBMISSO AO OUTRO.
Respeito se constrói detectando territórios de poder: é diálogo. É saber que o direito meu precisa ser dialogado quando esbarra no seu. Dever é saber respeitar o espaço do Outro - e se fazer respeitado. Construção de respeito se dá no contexto em que se vive - assim, aqui posso talvez concordar com o psicoterapeuta: o adolescente vive num contexto que, aparentemente ou possivelmente, facilite, auxilie, promova ou desenvolva a intolerância.
Discordo, veementemente, noutro aspecto: mata-se por bullying, assim como por homofobia ou por uma discussão acalorada. Cada um sabe “onde o calo aperta” e, alguns, por não saberem o que é Respeito ou lidar com a falta dele, cometem crimes. Isso não é desculpa para homicídio ou suicídio! Isso não é apologia de violência, é somente um alerta para que nos curemos do ódio ao Outro que a vida nos imputa. Alguém que mata o Outro (ou se mata) é por não enxergar a possibilidade da Relação. E isso pode ser por qualquer razão: desde que se perca a tolerância.
Quando a vida perde o sentido, morre-se ou mata-se - literal ou metaforicamente. 
O garoto, em questão, é vítima - e causador - da anulação do diálogo. E saibamos: extirpar o diálogo é também um crime - literal e metafórico, pois rompe com a possibilidade de Vida (vida como estar EM COMUNIDADE, EM RELAÇÃO com o Outro).
Direito e Dever: saibamos dosar com a abertura ao Diálogo. E isso não é o que se vê hoje. 
A intolerância (movida por ideologias, principalmente) é o maior gatilho para os crimes da atualidade.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

INTERVENÇÃO GAY

Hoje testemunhamos um retrocesso na cultura brasileira. Um juiz legitimou uma "cura gay".
Abriu-se, desta maneira, o precedente legal de voltarmos ao tempo dos discursos que advogavam que um homossexual não era um Sujeito. 
Assim, novamente neste país, um homossexual é um mero indivíduo, acometido de uma doença.
Escolher a Vida, nesta situação, é arcar com todo o peso do preconceito, da exclusão e, principalmente, com o julgamento de que a minha sanidade, cultura e visão de mundo carecem de uma intervenção.
Hoje, como no passado recente, aos olhos da Psicologia e do Direito, eu sou um marginal, que leva uma vida anormal: agora, sob o viés dessas áreas de conhecimento, estou com a sanidade comprometida, com orientação sexual deturpada e, consequentemente, sou um praticante de atos de perversão: eu sou gay.
Para escolher a Vida, é preciso lidar com a transformação, desinência material da Morte. Explico: Se todos mudassem um pouco a forma de ver a Existência, talvez entendessem razoavelmente que estamos todos morrendo aos poucos, desde o momento em que nascemos. O maior câncer - a maior doença, incurável - que lutamos diariamente, é o Tempo. Uns têm mais, outros menos, por razões diversas.
Vendo assim, prego a liberdade: que as pessoas possam optar como vão seguir morrendo, enquanto têm tempo de viver. 
Um doente, como Pessoa, tem o direito de escolher seu tratamento: isso define a sua Humanidade.
Se doença é sinônimo de pouca saúde, escolho viver com a desinência da morte social, biológica e legítima. Escolho ser gay e recuso tratamento.
É tão difícil e desagradável se sentir deslocado do contexto que emerge, que espero não desistir de viver.


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

RESPIRAR COMO PROCESSO ARTÍSTICO (?)

A Afirmação:
"se arte é tudo o que provoca reação ou interação, tudo provoca reação... Até respirar pode ser Arte... Tudo pode ser Arte"
A frase foi de um ilustre desconhecido unfacefriend do Facebook, ao esculhambar um trabalho artístico,  exposto num museu que foi confundido por lixo por uma funcionária da limpeza. 
A título de explicação, o trabalho exposto era uma instalação, composta por garrafas de vinho, bitucas de cigarro e confetes e serpentinas, com o intuito de denunciar a banalidade da corrupção na Itália nos anos 80. Explico: muitos dos comentários elogiavam a faxineira, pois ela tinha feito um serviço ao museu, livrando-o do "lixo" (a tal instalação já mencionada).
Vamos seguir, tentando ser pedagógico a fim de ajudar os "coleguinhas" a pensarem um pouco sobre as opiniões expressas, recheadas de senso comum - e preconceito de sobra...

Arte depende do contexto e de interação com quem observa.
Se o ato de respirar for tratado como um processo artístico em um contexto, como uma proposta para que outras pessoas percebam e interajam com esse ato (com movimento, pensamento, reflexão ou até incômodo, entre outras formas de interação), faz sentido dizer que Arte é uma linguagem e envolve comunicação de uma ideia,  através de meios diversos, para todos os canais perceptivos do corpo de quem observa.
Até lixo pode ser Arte: qdo exposto como uma ideia e fim específico em um determinado contexto, irá representar simbolicamente, gerando um discurso sígnico.
Entender Arte por esse viés não é pra qualquer um, infelizmente. As pessoas estão acstumados a pensar que Arte só tem valor se for cara, bela e organizada formalmente por preceitos classicos. Principalmente, para aqueles que hierarquizam - de maneira tradicional - os objetos artísticos, valorando uns em detrimento de outros, pelo domínio do uso da técnica empregada. 
Antes, grandes cantores(as) eram vistos(as) como aqueles que detinham grande técnica vocal. Hoje, não adianta não expressar algo para além do excelente uso da técnica. 
Hoje, excelentes bailarinos não são somente os que giram mais ou sustentam a perna mais alto: eles podem ter - ou não - o domínio de movimentos difíceis, mas devem ser expressivos. Caso contrário, qualquer bom ginasta ou contorcionista seria "melhor" que um bailarino.
Há casos em que a função da Arte é política, denunciando a realidade de alguns contextos de forma não literal e evitando meios convencionais (não busca ser exposta em telas e molduras, em salas de cinema ou palcos de teatros, por exemplo). Nesse caso, ela é facilmente tratada como algo "menor" ou "sem qualidade". 
Goste você ou não, Arte é Arte: mesmo que se pareça com lixo. Lembre que, parecer-se com lixo, em se tratando de Arte, não é problema nenhum para o artista: talvez seja essa uma das propostas, entre tantas leituras que o objeto artístico provoca...Talvez ele queira que vc reflita sobre se lixo pode ser Arte; sobre uma disposição proposital de alguns elementos escolhidos que parecem esteticamente com lixo; ou, ainda, sobre o lixo de pessoa que você é, através da brincadeira com sua incapacidade cognitiva e reflexiva de enxergar naquela exposição uma obra provocativa relacionada a uma ideia especial - uma crítica daquele contexto.
Como eu disse, Arte é pra qualquer um. Mas nem todo qualquer - independente de classe social ou poder aqusitivo - consegue entender isso.
Por Arthur Marques. Em 15/09/2017. 

sábado, 16 de setembro de 2017

CENSURA EM TEMPOS DE TEMER

Este texto é de autoria de Renan Quinalha.

CENSURA MORAL À PEÇA "O EVANGELHO SEGUNDO JESUS, RAINHA DO CÉU"

Uma pessoa, chamada Virginia Bossonaro (Bolsonaro?) Rampin Paiva ajuizou uma ação de obrigação de fazer cumulada com pedido de antecipação de tutela contra a peça "O evangelho segundo Jesus, rainha do céu", que seria exibida no SESC Jundiaí.

Conforme relatório da decisão judicial, o motivo do pedido de censura: a peça iria "de encontro à dignidade cristã" por apresentar "Jesus Cristo como um [sic] transgênero", "exponto ao ridículo os símbolos como a cruz e a religiosidade que ela representa".

A fundamentação do magistrado para deferir a tutela de urgência, ou seja, antecipadamente e mesmo sem ouvir a outra parte, merece análise detida.

Primeiro, ele afirma que o limite da liberdade de expressão é dado pelas figuras religiosas e sagradas. Nesse sentido, afirma ele, em sua decisão, que "muito embora o Brasil seja um Estado Laico, não é menos verdadeiro o fato de se obstar que figuras religiosas e até mesmo sagradas sejam expostas ao ridículo, alem de ser uma peça  de indiscutível mau gosto e desrespeitosa ao extremo, inclusive".

Acrescenta ainda o juiz que permitir que uma trans encene o personagem Jesus Cristo seria uma agressão a muitas pessoas: "em se permitindo uma peça em que este HOMEM SAGRADO seja encenado com um travesti, a toda evidência, caracteriza-se ofensa a um sem número de pessoas".

Fingindo agir de modo imparcial e laico, o que fica evidente ser uma mentira por conta da linguagem adjetivada e flagrantemente religiosa, afirma ele que não está impondo sua crença a terceiros, mas impedindo um ato desrespeitoso e de mau gosto que atinge o sentimento do cidadão comum, sem explicar quem seria esse tal "cidadão comum": "não se trata aqui de imposição a uma crença e nem tampouco a uma religiosidade. Cuida-se na vedade de impedir um ato desrespeitoso e de extremo mau gosto que certamente maculará o sentimento do cidadão comum, avesso a esse estado de coisa".

A seguir, ele emite claramente sua opinião dizendo que a peça é agressiva demais: "não se pode produzir uma peça teatral de um nível tão agressivo".

Por fim, na fundamentação ainda, ele afirma que "liberdade de expressão não se confunde com agressão e falta de respeito e, malgrado a inexistência da censura prévia, não se pode admitir a exibição de uma peça com um baixíssimo nível intelectual que chega até mesmo a  invadir a existência do senso comum, que deve sempre permear por toda a sociedade".

E, na parte dispositiva, o juiz proíbe a peça de ser exibida nesta noite ou em qualquer outro dia, sob pena de multa diária e crime de desobediência: a peça é "atentatória à dignidade da fé cristã, na qual JESUS CRISTO não é uma imagem e muito menos um objeto de adoração apenas, mas sim O FILHO DE DEUS", proibo a ré de apresentar a peça prevista para o dia de hoje (15 de setembro) e também em nenhuma outra data sob pena de multa diearia de R$ 1000,00 (um mil reais) sem prejuízo da tipificação do crime de desobediência.

Ora, segundo o magistrado, ser uma pessoa trans é algo "agressivo", "ofensivo", "desrespeitoso", "expor ao ridículo", "de extremo mau gosto" e de "baixíssimo nível intelectual".

Essa decisão é, do começo ao fim, um manifesto transfóbico. Não tem outro nome. Recheada da visão moral conservadora e tacanha do juiz Luiz Antonio de Campos Júnior, a decisão exala sua opinião pessoal com uma série de adjetivos e palavras absurdas.

Agressiva, ofensiva, desrespeitosa, ridícula, de mau gosto e de baixíssimo nível intelectual, além de inconstitucional, é a decisão desse juiz.

O Brasil é o país que mais mata pessoas trans no mundo. Só em 2016, foram 144 assassinatos segundo a ANTRA. Um a cada 3 dias. A expectativa média de vida das pessoas trans é de 35 anos. Menos da metade da média brasileira, em torno de 75 anos.

Essa decisão acabou de dar uma enorme contribuição para aumentar a violência transfóbica. Trata-se de um atentado contra a dignidade e os direitos fundamentais das pessoas trans, além de violação expressa à liberdade de expressão e à liberdade artística.

Isso é mais grave do que o episódio do encerramento da mostra Queermuseu, pois não foi uma empresa privada que cancelou uma manifestação artística por ela patrocinada, foi o Poder Judiciário, que deveria assegurar direitos, que chancelou a transfobia de uma pessoa que ingressou com essa ação judicial.

É preciso dar um basta a essa escalada conservadora, é inadmissível que a patrulha moral do fundamentalismo religioso tome conta das escolas, dos teatros, das mostras de artes plásticas e demais instituições culturais. O Brasil ainda é um país laico, esse tipo de intervenção é inadmissível!

quinta-feira, 14 de setembro de 2017

PERVERSÃO BOLSONAZI TEM EXPLICAÇÃO

O fenômeno 'bolsonazista': trata-se da própria materialização da 'razão cínica' citada e criticada Peter Sloterdijk (2011), que se resume na máxima: "eles sabem o que fazem e, mesmo assim, continuam a fazer".

Interessante essa análise psicológica: Bolsonaro representa - como símbolo e politicamente - o 'desejo' sem nenhuma 'neurose' - a 'perversão' freudiana.  

E o desejo é o extermínio do Outro, que é identificado como aquele que não se enquadra, por qualquer razão, em um padrão socialmente imposto. 

Na verdade, trata-se somente de um discurso individualista (e nada cristão): é exterminar o que VOCÊ não aceita, não gosta e não tolera.

Esse discurso é travestido - cinicamente - por uma defesa dos bons valores morais 'cristãos' (unicamente pelo SEU entendimento de cristianismo), dos bons costumes e da boa tradição familiar também dita 'cristã', mas, esquecendo da tal bíblia os episódios de: incesto, de pais assassinando filhos, de poligamias... entre outras passagens curiosas.

Sem mencionar que as maiores igrejas representantes do cristianismo dizimaram milhões de pessoas em guerras santas, nas fogueiras da Santa Inquisição e, na atualidade, seus representantes são acusados de corrupção por desvios, lavagem de dinheiro e sonegação de impostos e crimes de estupros e pedofilia. Mas, esqueçamos esse aspecto tenebroso do cristianismo. Ops... Desculpem-me: JAMAIS DEVEMOS ESQUECER. 

É bom também não esquecer que há idiotas - como o suposto cantor Zezé de Camargo,  que advoga publicamente que não sofremos uma ditadura no Brasil, mas um "militarismo vigiado" e que, por essa razão, o número de pessoas torturadas e mortas pelo regime foi  "irrelevante" frente aos números de outros países que supostamente são uma "verdadeira didatura". Ainda, alguns artistas conseguiram se exilar para não serem mortos e torturados, então...Foi mera bobagem e isso não justificaria elevar o estatuto dos chamados "anos duros" no Brasil para "ditadura".
Pena que as famílias de parentes mortos e torturados não podem concordar com isso, não é, Zezinho? Mas você não tem a devida cognição para lidar com essa informação que presume entendimentos de política, história, opressão: sua "Arte", pouquíssimo engajada e acrítica não exige essa demanda de informações. Logo, é compreensível que esse pensamento tenha sido proferido por você. Fica uma dica: cala a boquinha, em respeito aos parentes de vítimas de tortura, desaparecidos e mortos.

Curiosamente, os que aplaudem hoje o Zezé de Camargo por sua equívoca colocação e, logicamente, pela afinidade ideológica que prega uma volta ao militarismo no Brasil - diga-se "a ordem", que é exatamente o extermínio do Outro através da coerção - clamam por Bolsonaro nas eleições presidenciais para 2018. 

E Bolsonaro tem como grande ídolo Ustra, o maior torturador da história da ditadura no Brasil. Zezé e Bolsonaro: que dupla dinâmica. Já vejo até o nome do hit do CD:  "Tá ruim, mas piora".

É perversão personificada. É razão cínica, que emerge sem pudor, assumida, e orgulhosamente declarada. É o fim da neurose freudiana.

Em suma, chama atenção a análise do psicólogo Rui Melo (apud CRUZ, 2017), nesse ponto:
"Bolsonaro instiga a perversão que existe em cada um de nós. Todos nós temos um componente perverso".
Assumir a perversidade é sinal de que o tal cristianismo eatá deturpado e sendo pregado em formas incrivelmente intolerantes, como nunca vistas antes: basta notar os ataques de traficantes convertidos em fundamentalistas de igrejas neopentecostais contra lugares de culto de religiões de matriz africana no Rio de Janeiro. Seus ataques são motivados pelas ações proselitistas dessas igrejas evangélicas, que pregam o embate - e, pior que isso - estão legitimadas por um governo do estado do Rio de Janeiro assumidamente evangélico neopentecostal, bispo e dono de uma instituição religiosa dessa linha ideológica, que não interfere nos crimes de violência religiosa intolerante.

Estado de guerra. O que voga é o extermínio. Sem neurose.

Fonte:

CRUZ, Maria Tereza. Bolsonaro? Freud explica. Yahoo Notícias. 12 set.2017. Disponível em: .<https://br.noticias.yahoo.com/bolsonaro-freud-explica-140154590.html>. Acesso em 13 set.2017

SLOTERDJIK. Peter. Crítica da razão cínica. Relógio D'Água Ed, 2011.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

ZOOFILIA E ARTE EM VAREJO

Você achou mesmo que Cena do Interior II (óleo sobre tela, 120 x 100 cm, 1994. Disponível em: <http://www.adrianavarejao.net/pt-br/cena-de-interior-ii>. Acesso em 11 set. 2017) de Adriana Varejão é repugnante e imoral por "fazer apologia" de zoofilia?
Vamos perder alguns minutos na tentativa de fazer uma utilidade pública. Em se tratando de Arte,
  1. Nunca "recorte" uma pequena parte de uma obra: veja-a em sua totalidade e sempre contextualize;
  2. Conheça, de preferência, o conjunto da obra de um artista para formar uma pequena ideia do que ele costuma tratar;
  3. "Gosto" não é parâmetro de avaliação. Se você 'gosta' ou 'desgosta' de algo, esse problema é apenas SEU (e não do artista);
  4. Um discurso imagético não se trata sempre de uma "apologia": pode ser exatamente o contrário disso (denúncia/crítica) ou, simplesmente, um reflexo da realidade;
  5. Uma das funções da Arte é provocar REFLEXÃO. Para isto, o artista pode se valer de muitos artifícios (incomodar, por exemplo, é muito comum);
  6. O "belo" é altamente relativo...
  7. ...e a lista de 'dicas' é enorme, tá? E vale ressaltar: NÃO sou especialista ou crítico de Arte. Mas mesmo que você NÃO goste, Adriana Varejão é uma das artistas visuais brasileiras mais bem conceituadas por, justamente, denunciar signicamente através de sua arte - um dispositivo de representação - a violência em processos de assimilação cultural, principalmente através de colonização.
Paulo Herkenhoff (apud ZENARO, 2012), ex-diretor cultural do MAR (Museu de Arte do Rio), explica:
Adriana Varejão se detém em questões como a patologia do Barroco, a presença de um longo processo de influência da China na cultura brasileira e os traumas do processo de expansões colonial e dos encontros consequentes aos descobrimentos, como a uma tendência unicificante do mundo [...]. O que era esquecimento e opacidade na história se torna visível. A cartografia agora é violência. O processo de presentificação do passado é uma nova transparência. Esse é o seu nível sutil de politização da arte, distante da vassalagem ideológica. Cada tela é uma produção de evidências, no agenciamento da história.
E, mais importante ainda, concordando com Herkenhoff (apud ZENAR, 2012):
[...] A obra de Varejão trata da interação de planos de representação: a história da arte serve para rever criticamente a pretensa totalidade da história que molda e é moldada pela arte.
Pesquisa, gente. Adriana Varejão é "bafônica". A arte de Varejão num é "safadeza" ou "zoofilia": ela, politicamente, quer é que a gente reflita e nunca esqueça que a colonização não foi um processo "bacaninha" que foi realizado somente por gente "do bem". O tal "povo brasileiro" - eu e você, nós todos - somos todos descendentes de vítimas de um violento processo de assimilação cultural.
E Varejão é também brasileira. Varejão nos representa, em especial, na exposição "Queermuseu: cartografias da diferença na arte brasileira" em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, promovida pelo Santander Cultural, com a obra "Cenas do Interior II" (1994). Infelizmente, a exposição foi cancelada por protestos tanto na instituição quanto nas redes sociais (Vide <https://extra.globo.com/tv-e-lazer/santander-cultural-cancela-exposicao-queermuseu-cartografias-da-diferenca-na-arte-brasileira-21807796.html>. Acesso em 11 set. 2017).
Sobre esta questão, Varejão - ela mesma - de maneira interessante e aparentemente profética, parece estar ciente de que a arte é refém do mercado e de instituições. Já em 2009, a artista fala, em entrevista para a dissertação de mestrado de Fátima Cerqueira (2009, p. 161-162), o seguinte:
[...] Então, eu me sinto um pouco anacrônica, o tempo todo, eu tenho um complexo danado, porque é super marginal pintar. É assim, eu não sou prestigiada por... são pouquíssimos curadores que prestigiam, principalmente os ligados às instituições. A pintura vira uma arte muito voltada pro mercado. Tudo bem que você está presente em galerias importantes, em coleções importantes, porque todo mundo prefere comprar a pintura ainda. Mas em termos institucionais e de curadoria, de curadores e instituições, esse prestígio é muito pouco atualmente da pintura.
Diante da importância política da obra de Adriana Varejão, sabe o que é repugnante e imoral? O discurso reacionário estúpido e acrítico vigente, que impregna e repercute midiaticamente e que, consequentemente, emergirá em sucessivas gerações.
Por Arthur Marques. 11/09/2017.

REFERÊNCIAS:
CERQUEIRA, Fátima Nader Simões. Memória e persuasão na pintura de Adriana Varejão. Dissertação de mestrado. Programa de Pós-graduação em artes, Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo, Vitória-ES, 2009. 174 f. Disponível em: <http://portais4.ufes.br/posgrad/teses/tese_3576_disserta%E7%E3o%20MESTRADO.pdf>.

Website de Adriana Varejão. Disponível em: <http://www.adrianavarejao.net/pt-br/category/categoria/pinturas-series>. Acesso em 11 set. 2017.
ZENARO, Mariana. Adriana Varejão: Mares, vísceras e novas narrativas de nossa história. Postado em 24 de novembro de 2012. Disponível em: <https://revistacontemporartes.blogspot.com.br/2012/11/artes-plasticas-nao-e-questao-de-talento.html?m=1>. Acesso em: 11 set.2017.


sábado, 26 de agosto de 2017

Corpo que nos une (?)

Acho importante compartilhar a reflexão com vocês.

Acho ótimo o Grupo Corpo, uma das maiores companhias de dança do Brasil (se não a maior) ter criado um espetáculo com inspiração na Umbanda e no Candomblé. "Gira" (2017), Grupo Corpo

Vamos lá: O que me chama a atenção é somente o fato de que somos um país tão colonizado que, sendo uma das maiores cias de dança do Brasil, e tendo sido criada nos anos 70, somente AGORA é que o Corpo se (pre)ocupa com um tema tão brasileiro e, mais curioso ainda: dando um tratamento do assunto como algo "exótico".
Agora há pouco, o próprio Pederneiras assume no noticiário de hoje que esse era um tema que ele não conhecia: ele teve que estudar e se aproximar do candomblé e da umbanda para realizar o trabalho.
— Tivemos que frequentar alguns terreiros de candomblé e umbanda para aprender sobre o assunto. Éramos completos ignorantes. Exu é considerado o orixá mais humano, e tudo que está relacionado a movimento na Terra passa por ele — conta Rodrigo, o coreógrafo, que, durante a pesquisa, encantou-se pela umbanda e virou adepto. (ESPINOZA, Patrizia. "Grupo Corpo homenageia exu em novo espetáculo". Jornal o Globo, Caderno Rio Show. Disponível em: <https://oglobo.globo.com/rioshow/grupo-corpo-homenageia-exu-em-novo-espetaculo-21746824>. Acesso em 26 ago.2017).
Fico confuso. Fico feliz por ele e, ao mesmo tempo, triste por me reconhecer como brasileiro - como mais um entre tantos e como o próprio Pederneiras - que não conhece uma questão que faz parte da cultura popular, a exemplo de manifestações como a Umbanda e o Candomblé, tão presentes em boa parte dos estados brasileiros.

Reflito: ainda tem gente que abre a boca pra dizer que não temos uma dívida histórica com os negros - como se nós mesmos não fôssemos mestiços. O preconceito faz parte da nossa história como brasileiros.

Quando umbanda e candomblé são tratados como assuntos "exóticos" (ex-óptico: distante do olhar, diferente) por qualquer brasileiro que seja - é preciso reavaliar e perceber que há algo de MUITO errado ocorrendo - e há muito tempo - na nossa educação e na nossa cultura. Por que ela é negada? Quais os entraves para se notar que há questões que simplesmente não conhecemos porque são tratadas como externas e invisíveis?

Parabéns ao Grupo Corpo. Entretanto, o fato de "Gira" ser um espetáculo de dança que só emerge em 2017, mais de 40 anos depois da criação do Grupo, como um trabalho do repertório de uma companhia dita brasileira e que, inclusive, funcionou por todos esses anos por subvenção pública direta (meu dinheiro e seu dinheiro), é de se atentar para as questões políticas disso: a arte é um espelho necessário que reflete diretamente o contexto. Explica-se: O espelho tá refletindo uma imagem muito desagradável, feia, ruim... Esse contexto precisa ser (re)examinado e nossas atitudes dentro dele precisam ser (re)adequadas.

Estamos mal como "brasileiros": precisamos nos reinventar... Será que poderemos continuar a defender a hipótese de que a cultura é algo comum e que nos une? Não seríamos apenas povos muitos - e diversos - que dividimos um mesmo território? E, se nem temos a coragem e a boa vontade de cumprimentarmos e conhecermos um pouco o nosso vizinho, como dizer que a cultura nos une?

Brasileiros, façamos o favor: assumamos nosso lado "vira-lata"...Ser mestiço tem suas vantagens: como se sabe, como vira-latas não adoecemos facilmente, principalmente, se a cura é conhecida e atende por dois nomes: educação e cultura.

Arthur Marques. 26.08.2017
arthur_marques@yahoo.com.br

segunda-feira, 17 de julho de 2017

O TEMPO RESOLVE

O tempo resolve:
 ferida inflamada, 
queda de cabelo, 
roupa da moda,
 relógio parado, 
saudade de entes queridos, distantes...Ausentes. 
Inteligência e prudência, 
confiança, 
esquecimento,
 des...prendimento, des...culpa, des...gosto, des...ânimo, des...ordem. 
Demência. 
Experiência. 
Relíquia, 
foto feia, 
cintura, 
ferrugem, 
fuligem, 
sombra na piscina, 
idade escondida, 
maré cheia. 
Alcoolismo, 
raiva, 
lagarta, 
garrafa pet. 
Doença, tristeza, amor, gentileza. 
Estrago, mofo, cupim.
Fim

*escrito em meio a uma memorável crise de chôro e ansiedade, dentre muitas outras...Na madrugada de 22.06.2016.

Arthur Marques.

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